quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Da vinci

Há muitos níveis de envolvimento.
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Milhares de membros da Opus Dei são casados, têm família e fazem Obra de Deus no seio das suas próprias comunidades. Outros preferem viver em ascetismo na clausura das nossas residências. Estas escolhas são pessoais, mas todos na Opus Dei partilhamos o objectivo de tornar o mundo melhor fazendo a Obra de Deus. É certamente um propósito admirável.
Ah, mas a razão raramente resultava. Os media gravitavam para o escândalo, e a Opus Dei, como a maior parte das grandes organizações, contava entre os seus membros algumas almas perdidas que lançavam uma sombra sobre todo o conjunto.
Dois meses antes, um grupo da congregação numa universidade do Midwest fora apanhado a drogar novos recrutas com mescalina na tentativa de induzir um estado eufórico que os neófitos tomassem por uma experiência religiosa. Um outro estudante universitário usara o seu cilício durante mais tempo do que as recomendadas duas horas diárias e contraíra uma infecção que quase o matara. Em Boston, bastante recentemente, um jovem e desiludido banqueiro doara as poupanças de uma vida inteira à Opus Dei antes de tentar suicidar-se.
Ovelhas tresmalhadas, pensava Aringarosa, e o seu coração voava para eles.
O grande embaraço fora, claro, o muito publicitado julgamento do espião do FBI Robert Hanssen, que, além de ser um proeminente membro da Opus Dei, acabara por se revelar culpado de práticas sexuais desviantes. No julgamento, ficara provado que equipara o seu quarto com câmaras de vídeo escondidas para que os amigos pudessem vê-lo a ter relações com a mulher. "O que dificilmente se poderá considerar um passatempo adequado a um católico devoto", observara o juiz.
Infelizmente, todos estes acontecimentos tinham ajudado ao aparecimento de um novo grupo de vigilância conhecido como Opus Dei Awareness Network (ODAN). O concorridíssimo website deste grupo - www.odan.org - publicava histórias assustadoras narradas por ex-membros que alertavam para o perigo de aderir à organização. Os meios de comunicação referiam-se agora à Opus Dei como "a Máfia de Deus" e "o Culto de Cristo".
Receamos aquilo que não compreendemos, pensou Aringarosa, Perguntando a si mesmo se aqueles críticos fariam alguma ideia quantas vidas a Opus Dei tinha enriquecido. O grupo gozava do
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pleno aval e da bênção do Vaticano. A Opus Dei é uma prelatura pessoal do próprio Papa.
Recentemente, no entanto, vira-se ameaçada por uma força infinitamente mais poderosa do que os media.... um inimigo inesperado do qual Aringarosa não tinha meio de se esconder. Cinco meses antes, o caleidoscópio do poder fora sacudido, e Aringarosa estava ainda a refazer-se do golpe.
- Nem imaginam a guerra em que se meteram -, murmurou o bispo para si mesmo, olhando através da janela do avião para o negro oceano lá em baixo. Por um instante, refocou os olhos, demorando-os no reflexo do seu próprio rosto - escuro e oblongo, dominado por um nariz achatado e adunco, partido por um murro quando era um jovem missionário, em Espanha. Uma deficiência física que ele quase já não notava. O mundo de Aringarosa era o mundo da alma, não o da carne.
Quando o avião sobrevoava a costa de Portugal, o telemóvel começou a vibrar no bolso da sotaina de Aringarosa, com o sinal sonoro desligado. Mal-grado as regras da companhia que proibiam o uso de telefones celulares durante o voo, Aringarosa sabia que aquela era uma chamada que não podia perder. Apenas um homem conhecia aquele número, o mesmo que lhe enviara o telefone pelo correio.
Excitado, o bispo respondeu em voz baixa:
- Sim?
- O Silas localizou a Chave de Abóbada - disse a voz. - Está em Paris. Na igreja de Saint-Sulpice.
O bispo Aringarosa sorriu.
- Então estamos perto.
- Podemos consegui-la imediatamente. Mas precisamos da sua influência.
- com certeza. Diga-me o que devo fazer.
Quando desligou o telemóvel, Aringarosa tinha o coração a bater com força. Olhou mais uma vez para o vazio da noite, sentindo-se um anão face aos acontecimentos que acabava de desencadear.


A oitocentos quilómetros dali, o albino chamado Silas, inclinado para uma pequena bacia cheia de água, lavava o sangue que lhe escorria das costas, observando os esfiapados padrões de vermelho que se desenhavam no líquido. Purga-me com o hissope e ficarei limpo,
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rezou, citando os Salmos. Lava-me, e ficarei mais branco do que a neve.
Silas sentiu uma excitação expectante que não experimentava desde os tempos da sua antiga vida, uma excitação que o surpreendeu e ao mesmo tempo o electrizou. Havia já uma década que seguia O Caminho, lavando-se do pecado... reconstruindo a sua vida... apagando a violência do seu passado. Naquela noite, porém, tudo voltara, numa vaga avassaladora. O ódio que tanto se esforçara por enterrar fora chamado à superfície. Ficara espantado pela rapidez com que o passado ressurgira. E com ele, claro, tinham regressado as suas capacidades, enferrujadas mas utilizáveis.
A mensagem de Jesus é uma mensagem de paz... de não-violência... de amor. Era esta a mensagem que lhe tinham ensinado desde o início, a mensagem que gravara no coração. E no entanto, era esta a mensagem que os inimigos de Cristo ameaçavam agora destruir. Aqueles que ameaçam Deus com a força, encontrarão a força. Inamovível e firme.
Durante dois milénios, os soldados de Cristo tinham defendido a sua fé contra aqueles que tentavam destruí-la. Naquela noite, Silas fora chamado à batalha.
Depois de secar as feridas, vestiu o hábito que lhe chegava aos tornozelos. Era grosseiro, feito de lã escura, que lhe acentuava a brancura da pele e dos cabelos. Amarrou a corda à volta da cintura, cobriu a cabeça com o capuz e permitiu-se um instante para observar o seu reflexo no espelho. As rodas começaram a girar.
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>CAPÍTULO SEIS

Depois de ter passado por baixo da grade de segurança, Robert Langdon deteve-se à entrada da Grande Galeria, a olhar para a boca de um longo e fundo desfiladeiro. De ambos os lados, as paredes erguiam-se a nove metros de altura, fundindo-se na escuridão, lá em cima. O clarão avermelhado das luzes de serviço parecia elevar-se do chão, banhando numa luminosidade irreal a deslumbrante colecção de da Vincis, Ticianos e Caravaggios suspensos do tecto por meio de cabos. Naturezas-mortas, cenas religiosas e paisagens faziam companhia a retratos de nobres e políticos.
Apesar de a Grande Galeria albergar as mais famosas peças da arte italiana, muitos dos visitantes achavam que o que nela havia de mais impressionante era na realidade o seu famoso soalho de parquet. Disposto num estonteante desenho geométrico de placas de carvalho em diagonal, o soalho produzia uma efémera ilusão de óptica - uma rede multidimensional que dava ao visitante a impressão de flutuar através da galeria sobre uma superfície que se transformava a cada passo.
Os olhos de Langdon, que seguiam o traçado dos embutidos de madeira, detiveram-se abruptamente num inesperado objecto caído no chão poucos metros à sua esquerda, isolado por fita da Polícia.
Voltou-se para Fache.
- Aquilo ali no chão... é um Caravaggio?
O capitão assentiu, sem sequer olhar.
O quadro, calculou Langdon, valia mais de dois milhões de dólares, e no entanto ali estava, caído no chão, como um cartaz que alguém tivesse deitado fora.
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- Que raio está a fazer no meio do chão?
Fache lançou-lhe um olhar severo, claramente nada impressionado.
- Isto é aquilo a que se chama um local do crime, senhor Langdon. Não tocámos em nada. Aquela tela foi arrancada da parede pelo conservador Saunière. Foi assim que ele activou o sistema de segurança.
Langdon olhou para a grade, tentando reconstituir mentalmente o que acontecera.
- Monsieur Saunière foi atacado no seu gabinete, conseguiu fugir para a Grande Galeria e activou a grade de segurança arrancando o quadro da parede. A grade desceu imediatamente, selando a galeria. Esta é a única porta de entrada e de saída.
Langdon estava confuso.
- Quer dizer com isso que o senhor Saunière encurralou o atacante dentro da galeria?
Fache abanou a cabeça.
- A grade de segurança separou o conservador Saunière do seu atacante. O assassino ficou no corredor e atingiu monsieur Saunière a tiro através da grade. - Apontou para uma etiqueta cor de laranja presa a uma das barras da grade por baixo da qual acabavam de passar. - A equipa PTC encontrou resíduos de pólvora de uma arma. Disparou através da grade. Monsieur Saunière morreu sozinho, aqui dentro.
Langdon recordou a fotografia do corpo de Saunière. Dizem que fez aquilo a si mesmo. Olhou para o interminável corredor que se estendia diante deles.
- Onde está então o corpo?
Fache endireitou o seu cruciforme alfinete de gravata e começou a caminhar.
- Como provavelmente sabe, a Grande Galeria é muito comprida.
O comprimento exacto, se Langdon bem recordava, era de cerca de quatrocentos e cinquenta metros, o equivalente a três Washington Monuments postos a seguir uns aos outros. E a largura do corredor era igualmente impressionante, podendo com toda a facilidade acomodar dois comboios de passageiros lado-a-lado. Ao longo do centro, a espaços irregulares, distribuíam-se estátuas ou grandes urnas
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de porcelana, que faziam o papel de separador e obrigavam o fluxo de visitantes a fazer-se num sentido e no outro junto a paredes opostas.
Fache mantinha-se silencioso, avançando a passo rápido pelo lado direito da galeria, o olhar fixo em frente. Langdon sentia que era quase uma falta de respeito passar diante de tantas obras-primas sem fazer uma pausa, quanto mais não fosse para um olhar.
Não que conseguisse ver qualquer coisa com esta luz, pensou.
O mortiço clarão avermelhado trouxe-lhe infelizmente à memória recordações da sua última experiência com iluminação não-invasiva nos Arquivos Secretos do Vaticano. Era já o segundo e perturbador paralelo com a sua quase mortal aventura em Roma. Voltou a pensar em Vittoria. Estivera ausente dos seus sonhos durante meses. Mal conseguia acreditar que Roma tivesse sido apenas um ano antes; pareciam-lhe décadas. Uma outra vida. A última vez que soubera dela, fora em Dezembro: um postal a dizer que ia a caminho do mar de Java para prosseguir as suas pesquisas... qualquer coisa relacionada com o uso de satélites para monitorizar as migrações das mantas. Langdon não alimentara ilusões a respeito de uma mulher como Vittoria Vetra pudesse ser feliz a viver num campus universitário, mas o encontro de Roma despertara nele desejos que nunca imaginara poder sentir. A afinidade de uma vida inteira com o celibato e as liberdades simples que permitia fora de alguma maneira abalada... substituída por um inesperado vazio que parecia ter crescido durante o último ano.
Continuaram a avançar, sem que Langdon visse qualquer corpo.
- O Jacques Saunière veio até tão longe?
- Monsieur Saunière sofreu um ferimento de bala no estômago. Morreu muito lentamente. Talvez mais de quinze ou vinte minutos. Era obviamente um homem de grande força pessoal.
Langdon voltou-se para ele, estupefacto.
- A segurança demorou vinte minutos a chegar aqui?
- Claro que não. Os seguranças do museu responderam imediatamente ao alarme e encontraram a Grande Galeria selada. Através da grade, ouviram alguém a mexer-se na extremidade mais distante do corredor, mas não conseguiam ver quem era. Gritaram, mas não obtiveram resposta. Assumindo que só podia tratar-se de um criminoso, seguiram o protocolo e chamaram a Polícia Judiciária.
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Ocupámos as nossas posições quinze minutos mais tarde. Quando chegámos, erguemos a grade apenas o suficiente para podermos cassar por baixo dela, e mandei uma dúzia de agentes armados para o interior. Percorreram toda a galeria, com o objectivo de encurralar o intruso.
- E?
- Não encontraram ninguém cá dentro. Excepto... - apontou mais para o fundo do corredor - ele.
Langdon ergueu os olhos e seguiu a direcção do dedo estendido de Fache. De início, pensou que o capitão estava a apontar para uma grande estátua de mármore colocada no meio da galeria. Mas, continuando a avançar, começou a ver para lá da estátua. Trinta metros mais à frente, um projector isolado montado num suporte apontava para o chão, criando uma crua mancha de luz branca na avermelhada escuridão circundante. No centro da poça de luz, como um insecto sob as lentes de um microscópio, o corpo do conservador Saunière jazia nu no chão de parquet.
- Viu a fotografia - disse Fache -, de modo que isto não constituirá surpresa.
Langdon sentiu um grande frio entranhar-se-lhe nos ossos à medida que se aproximavam do corpo. À sua frente, estava uma das mais estranhas imagens que alguma vez vira.


O pálido cadáver de Jacques Saunière jazia no soalho de parquet exactamente como aparecia na foto. Debruçado para ele, de olhos semicerrados por causa da luz, Langdon recordou a surpresa que sentira ao saber que Saunière passara os últimos dez minutos de vida a dispor o seu próprio corpo daquela estranha maneira.
O conservador parecia notavelmente vigoroso para um homem da sua idade... e toda a sua musculatura estava bem à vista. Despojara-se de todas as peças de roupa, que deixara cuidadosamente dobradas no chão, e deitara-se de costas no centro da larga galeria, perfeitamente alinhado com o eixo do corredor. Tinha os braços e as pernas bem abertos e esticados para fora, como uma criança a preparar-se para dar um chapão numa piscina... ou, talvez mais exactamente, como um homem a ser esquartelado por uma qualquer força invisível.
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Logo abaixo do esterno, uma mancha de sangue assinalava o ponto onde a bala trespassara a carne. A ferida sangrara surpreendentemente pouco, deixando apenas uma pequena poça de sangue escuro.
Também o indicador da mão esquerda estava ensanguentado. Aparentemente, Saunière mergulhara-o na ferida para criar o mais perturbador aspecto da tétrica cena; usando o seu próprio sangue como tinta e a pele nua do ventre como tela, desenhara um símbolo simples: cinco segmentos de recta que se intersectavam para formar uma estrela de cinco pontas.
O pentáculo.
A estrela sangrenta, centrada no umbigo, dava ao cadáver uma irrecusável aura demoníaca. A foto que vira era já suficientemente arrepiante, mas agora, ao testemunhar aquilo em pessoa, Langdon sentiu um mal-estar crescente.
Jacques Saunière fez isto a si mesmo.
- Senhor Langdon? - Os olhos escuros de Fache estavam cravados nele.
- É um pentáculo - disse Langdon, com uma voz que soou cava naquele espaço enorme. - Um dos símbolos mais antigos do mundo. Já era usado quatro mil anos antes de Cristo.
- E que significa?
Langdon hesitava sempre que lhe faziam aquela pergunta. Explicar a alguém o que um símbolo "significava" era como dizer-lhe como uma determinada canção devia fazê-lo sentir-se - era diferente de pessoa para pessoa. Nos Estados Unidos, um capuz branco do Ku Klux Klan evocava imagens de ódio e racismo, ao passo que, em Espanha, a mesma indumentária tinha um significado de fé religiosa.
- Os símbolos têm significados diferentes em contextos diferentes - disse. - Essencialmente, o pentáculo é um símbolo religioso pagão.
Fache assentiu.
- Culto do diabo.
- Não - corrigiu Langdon, apercebendo-se imediatamente de que a sua escolha de palavras devia ter sido mais clara.
Actualmente, o termo pagão tornara-se quase sinónimo de culto do diabo - uma interpretação grosseiramente errada. Na realidade, as
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raízes da palavra remontavam ao latim paganus, que significa habitantes do campo. Os "pagãos" eram literalmente pessoas do campo não doutrinadas que continuavam agarradas às antigas religiões rurais do culto da Natureza. Tão forte era, de facto, o medo que a Igreja tinha dos habitantes das aglomerações rurais que o outrora inócuo termo "vilão" - o que vive numa aldeia ou vila - acabara por designar uma pessoa má.
- O pentáculo - esclareceu Langdon - é um símbolo pré-cristão relacionado com o culto da Natureza. Os antigos imaginavam o mundo em que viviam dividido em duas metades: masculino e feminino. Os seus deuses e deusas esforçavam-se por manter o equilíbrio de poder. Yin e Yang. Quando o masculino e o feminino estavam equilibrados, havia harmonia no mundo. Quando se desequilibravam, havia caos. - Apontou para o estômago de Saunière.
- Este pentáculo representa o lado feminino de todas as coisas... um conceito a que os historiadores da religião chamam "sagrado feminino" ou "deusa divina". Jacques Saunière sabê-lo-ia melhor do que ninguém.
- Monsieur Saunière desenhou o símbolo de uma deusa no estômago?
Langdon teve de admitir que parecia estranho.
- Na sua interpretação mais específica, o pentáculo simboliza Vénus... a deusa do amor sexual e da beleza femininos.
Fache olhou para o homem nu e resmungou qualquer coisa.
- A religião antiga baseava-se na ordem divina da Natureza. A deusa Vénus e o planeta Vénus eram uma e a mesma coisa. A deusa tinha o seu lugar no céu nocturno e era conhecida por muitos nomes: Vénus, Estrela do Oriente, Ishtar, Astarte..., todos eles poderosos conceitos femininos com ligações à Natureza e à Mãe Terra.
Fache parecia ainda mais perturbado, como se de algum modo preferisse a ideia do culto do diabo.
Langdon decidiu não lhe revelar a mais surpreendente propriedade do pentáculo: a origem gráfica da sua ligação a Vénus. Ainda jovem estudante de Astronomia, ficara estupefacto ao saber que o planeta Vénus traçava, de oito em oito anos, um pentáculo perfeito céu eclíptico. Tão espantados tinham os Antigos ficado ao observar o fenómeno, que Vénus e o seu pentáculo se tornaram símboLo de perfeição, beleza e das qualidades cíclicas do amor sexual. Num
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tributo à magia de Vénus, os Gregos usavam o seu ciclo de oito anos para organizar os Jogos Olímpicos. Actualmente, poucas pessoas sabem que o calendário quadrienal das Olimpíadas modernas continua a seguir os meios-ciclos de Vénus. E menos ainda sabem que a estrela de cinco pontas esteve muito perto de se tornar o emblema olímpico oficial, tendo sido substituída à última hora pelos cinco anéis entrelaçados, que reflectem melhor o espírito de inclusão e harmonia dos Jogos.
- Senhor Langdon - disse Fache, abruptamente -, é evidente que o pentáculo tem também de estar relacionado com o diabo. Os vossos filmes de terror deixam esse ponto bem claro.
Langdon franziu o sobrolho. Obrigado, Hollywood. A estrela de cinco pontas tornara-se um chavão praticamente obrigatório nos filmes a respeito de assassinos psicopatas satânicos, geralmente desenhada nas paredes do apartamento de um qualquer satanista juntamente com outra pretensa simbologia demoníaca. Langdon ficava sempre frustrado quando via o símbolo neste contexto; as verdadeiras origens do pentáculo eram na realidade até muito divinas.
- Garanto-lhe - disse - que, a despeito do que possa ver nos filmes, a interpretação demoníaca do pentáculo é historicamente inexacta. O significado original feminino é correcto, mas o simbolismo do pentáculo tem sido distorcido ao longo dos milénios. Neste caso, através do derramamento de sangue.
- Receio não estar a compreender.
Langdon olhou para o crucifixo de Fache, sem saber muito bem como expor o que queria dizer.
- A Igreja, meu caro senhor. Os símbolos são muito resistentes, mas o pentáculo foi alterado pela Igreja Católica primitiva. No âmbito das campanhas do Vaticano para erradicar as religiões pagãs e converter as massas ao cristianismo, a Igreja lançou uma campanha de difamação contra os deuses e deusas pagãos, apresentando os respectivos símbolos como ligados ao mal.
- Continue.
- É um expediente muito comum em épocas de agitação. O novo poder emergente apodera-se dos símbolos existentes e degrada-os ao longo do tempo numa tentativa de apagar-lhes o significado. Na batalha entre os símbolos pagãos e os símbolos cristãos, os pagãos foram derrotados; o tridente de Posídon tornou-se a forquilha do diabo, o chapéu pontiagudo da mulher sábia passou a ser o
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emblema da bruxa, e o pentáculo de Vénus converteu-se no sinal do diabo. - Langdon fez uma pausa. - Infelizmente, também a instituição militar americana perverteu o pentáculo, que é hoje um dos principais símbolos da guerra. Pintamo-lo nos nossos caças a jacto e usamo-lo nos ombros dos nossos generais. - Triste sorte para a deusa do amor e da beleza.
- Interessante. - Fache fez um sinal na direcção do cadáver
de pernas e braços abertos. - E a posição do corpo? Como a interpreta?
Langdon encolheu os ombros.
- A posição apenas reforça a referência ao pentáculo e ao sagrado feminino.
A expressão de Fache ensombreceu.
- Desculpe?
- Repetição. Repetir um símbolo é a maneira mais simples de reforçar-lhe o significado. Jacques Saunière colocou-se na forma de uma estrela de cinco pontas. - Se um pentáculo é bom, dois pentáculos é melhor.
Fache seguiu com os olhos os cinco pontos definidos pela cabeça, mãos e pés do cadáver e voltou a passar a mão pelos cabelos cheios de gel.
- Uma análise interessante. - Fez uma pausa. - E a nudez? - Quase que grunhiu a palavra, parecendo achar repelente a visão do corpo de um velho. - Porque foi que ele se despiu?
Boa pergunta, pensou Langdon. Andava a remoê-la desde que vira a fotografia. O seu melhor palpite era que um corpo humano nu constituía mais uma referência a Vénus, a deusa da sexualidade humana. Apesar de a cultura moderna ter eliminado a maior parte da associação de Vénus à união física homem/mulher, um olho etimológico atento conseguia ainda distinguir vestígios do significado original de Vénus na palavra "venérea". Langdon decidiu não ir por aí.
- Senhor Fache, não posso obviamente dizer-lhe porque foi que o senhor Saunière desenhou esse símbolo no seu próprio ventre nem porque se colocou dessa maneira, mas posso dizer-lhe que um homem como Jacques Saunière consideraria o pentáculo como sinal da divindade feminina. A correlação entre este símbolo e o sagrado feminino é bem conhecida dos historiadores de arte e dos simbologistas.
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- Muito bem. E o uso do seu próprio sangue como tinta?
- Obviamente, não tinha mais nada com que escrever. Fache manteve-se silencioso por instantes.
- Na realidade, estou convencido de que usou sangue para que a Polícia pudesse seguir certos procedimentos forenses.
- Perdão?
- Olhe para a mão esquerda dele.
Langdon examinou o pálido braço do conservador desde o cotovelo até à mão, mas nada viu. Inseguro, contornou o corpo e ajoelhou-se, notando então, surpreendido, que Saunière segurava entre os dedos um grande marcador de ponta de feltro.
- Tinha-o na mão quando o encontrámos - disse Fache, afastando-se alguns metros até uma pequena mesa portátil coberta de ferramentas de investigação, cabos e vários aparelhos electrónicos.
- Como lhe disse - continuou, procurando entre os objectos que cobriam a mesa -, não tocámos em nada. Conhece esse tipo de caneta?
Langdon inclinou-se um pouco mais para ver a marca.
STYLO DE LUMIERE NOIRE.
Ergueu os olhos, surpreendido.
A caneta de luz negra, ou de marca de água, era um marcador de ponta de feltro especial originariamente concebido para ser usado pelos museus, restauradores e Polícia para pôr marcas invisíveis nos mais variados objectos. Utilizava uma tinta à base de álcool, fluorescente e não corrosiva, visível apenas à luz negra. Actualmente, o pessoal de manutenção dos museus usava-as nas suas rondas diárias para marcar as molduras dos quadros que necessitassem de ser restaurados.
Enquanto Langdon se punha de pé, Fache aproximou-se do projector e desligou-o. A galeria mergulhou numa súbita escuridão.
Momentaneamente cego, Langdon sentiu-se invadir por uma crescente incerteza. A silhueta de Fache reapareceu, iluminada por uma intensa luz púrpura. Aproximou-se, transportando uma fonte de luz portátil que o envolvia numa névoa violeta.
- Como talvez saiba - disse, com os olhos a brilhar no clarão violeta -, a Polícia usa a luz negra para investigar locais de crimes em busca de sangue e outras provas científicas. Pode, pois, imaginar a nossa surpresa... - Repentinamente, apontou a luz para o cadáver.
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Langdon olhou para baixo e deu um salto para trás.
O coração batia-lhe descompassadamente enquanto contemplava a estranha visão que brilhava à sua frente no soalho de parquet. Traçadas em letras luminescentes, as derradeiras palavras de Jacques Saunière refulgiam em tons púrpura ao lado do cadáver. Ao ver o que ali estava escrito, Langdon sentiu o nevoeiro que envolvera toda aquela noite tornar-se ainda mais denso.
Voltou a ler a mensagem e ergueu os olhos para Fache.
- Que raio é que isto significa?
Os olhos de Fache cintilaram com um brilho branco.
- Essa é, monsieur, precisamente a pergunta a que pretendo que responda.


Não muito longe dali, no gabinete de Saunière, o tenente Collet, que regressara ao Louvre, estava inclinado para a consola de um rádio pousado em cima da enorme secretária do conservador. Com excepção da estranha figura do pequeno guerreiro medieval que parecia observá-lo de um canto da secretária, sentia-se perfeitamente à-vontade. Ajustou os auscultadores e verificou os níveis de entrada no sistema de gravação do disco rígido. Tudo no verde. Os microfones funcionavam perfeitamente e a recepção era impecável.
Le moment de véríté, murmurou.
Sorrindo, fechou os olhos e acomodou-se para saborear o resto da conversa que estava a ser gravada no interior da Grande Galeria.
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>CAPÍTULO SETE

O modesto apartamento dentro da igreja de Saint-Sulpice situava-se no segundo piso, à esquerda da varanda do coro. Duas divisões com chão de pedra e um mínimo de mobiliário que serviam de casa à irmã Sandrine Biel havia mais de uma década. O convento, ali próximo, fora a sua anterior residência, mas ela preferia o silêncio e a calma da igreja e instalara-se muito confortavelmente com uma cama, um telefone e um aquecedor.
Como conservatrice d'affaires da igreja, a irmã Sandrine era responsável por todos os aspectos não religiosos do funcionamento do templo - manutenção geral, contratar pessoal de apoio e guias, encomendar abastecimentos como vinho para a eucaristia e hóstias.
Naquela noite, adormecida na sua estreita cama, foi acordada pelo retinir estridente da campainha do telefone. Ensonada, levantou o auscultador.
- Soeur Sandrine. Église Saint-Sulpice.
- Olá, irmã - disse o homem, em francês.
A irmã Sandrine sentou-se na cama. Que horas são? Reconheceu a voz do chefe, apesar de, em quinze anos, nunca ter sido acordada por ele. O abade era um homem profundamente piedoso, que ia para casa e para a cama logo a seguir à missa.
- Peço desculpa por tê-la acordado, irmã - continuou o abade, parecendo ele próprio um pouco confuso e nervoso. - Tenho de lhe pedir um favor. Acabo de receber uma chamada de um influente bispo americano. Talvez o conheça? Manuel Aringarosa?
- O chefe da Opus Dei? - Claro que o conheço. Quem, na Igreja, o não conhece? A prelatura conservadora de Aringarosa crescera
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em poder nos últimos anos. A sua ascensão ao estado de graça fora em 1982, quando João Paulo II a elevara inesperadamente "prelatura pessoal do Papa", sancionando oficialmente todas as práticas. Por uma coincidência que não podia ser inocente, a elevação da Opus Dei ocorrera no mesmo ano em que a riquíssima seita alegadamente transferira quase mil milhões de dólares para o Instituto do Vaticano para as Obras Religiosas - vulgarmente conhecido como Banco do Vaticano - salvando-o de uma embaraçosa bancarrota. Numa segunda manobra que fizera arquear mais de uma sobrancelha, o Papa pusera o fundador da Opus Dei na "via-rápida" para a santidade, reduzindo um período de espera pela canonização que com frequência se arrastava por um século a uns meros vinte anos. A irmã Sandrine não conseguia impedir-se de pensar que o estudo de graça de que a Opus Dei gozava em Roma era suspeito, mas com a Santa Sé não se discutia.
- Sua Eminência o bispo Aringarosa telefonou-me a pedir um favor - explicou o abade, nervosamente. - Um dos seus numerários está esta noite em Paris...
Enquanto ouvia o estranho pedido, a irmã Sandrine sentia-se cada vez mais confusa.
- Desculpe, está a dizer que esse numerário não pode esperar até amanhã?
- Receio que não. O avião parte muito cedo. E ele sempre sonhou ver Saint-Sulpice.
- Mas a igreja é muito mais interessante durante o dia. Os raios de sol a entrarem pelo óculo, as sombras graduadas do gnómon, é isso que torna Saint-Sulpice única.
- Concordo, irmã. No entanto, consideraria um favor especial se o deixasse entrar hoje à noite. Ele pode aí estar... digamos, à uma? entro de vinte minutos.
A irmã Sandrine franziu o sobrolho.
- Com certeza, terei muito gosto.
O abade agradeceu-lhe e desligou.
Intrigada, a irmã Sandrine deixou-se ficar mais uns instantes no quente da cama, a tentar sacudir as teias de aranha do sono. O seu
corpo de sessenta anos já não acordava tão prontamente como noutros tempos, embora o telefonema daquela noite lhe tivesse sem dúvida excitado os sentidos. A Opus Dei sempre a fizera sentir-se pouco
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à vontade. Além da adesão da prelatura aos rituais arcanos da mortificação corporal, o modo como encarava as mulheres era, no mínimo, medieval. Ficara chocada ao saber que as numerárias eram obrigadas a limpar, enquanto eles estavam na missa, as residências dos homens, e ainda por cima sem qualquer espécie de renumeração; as mulheres dormiam em tarimbas de madeira, ao passo que os homens dispunham de enxergas de palha; e as mulheres tinham de sujeitar-se a exigências ainda mais estritas de mortificação corporal... tudo como penitência acrescida pelo pecado original. Aparentemente, a dentada que Eva dera na maçã do conhecimento era uma dívida que as mulheres estavam condenadas a pagar por toda a eternidade. Infelizmente, enquanto a maior parte das Igrejas Católicas estava a avançar na direcção certa no respeitante aos direitos das mulheres, a Opus Dei ameaçava inverter o processo. Fosse como fosse, a irmã Sandrine recebera as suas ordens.
Fazendo rodar as pernas para fora da cama, pôs-se lentamente de pé, gelada pelo frio das pedras nos pés descalços. E à medida que o frio lhe subia pelo corpo, sentiu uma inesperada apreensão.
Intuição feminina?
Seguidora de Deus, a irmã Sandrine aprendera a encontrar paz nas vozes calmantes da sua própria alma. Naquela noite, porém, essas vozes mantinham-se silenciosas na igreja deserta que a rodeava.
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>CAPÍTULO OITO

Langdon não conseguia desviar os olhos das palavras que brilhavam com uma luminescência violeta rabiscadas no soalho de parquet. A última comunicação de Jacques Saunière parecia-lhe o mais improvável como mensagem de despedida que conseguia imaginar.
Dizia o seguinte:

13-3-2-21-1-1-8-5
O, Draconian devil!
Oh, lame saint!

Embora não fizesse a mínima ideia do que aquilo significava, Langdon compreendia a intuição de Fache de que o pentáculo tinha qualquer coisa a ver com o culto do diabo.
O, draconiano demónio!
Saunière deixara uma referência explícita ao diabo. Não menos bizarra era a série de algarismos.
- Uma parte parece um código numérico.
- Sim - concordou Fache. - Os nossos criptografias já estão a trabalhar nisso. Acreditamos que esses números podem ser a chave
que nos conduzirá ao assassino. Talvez um número de telefone, ou
qualquer tipo de identificação social. Têm algum significado simbólico para si?
Langdon voltou a olhar para os números, sentindo que ia demorar horas a tirar dali qualquer espécie de significado simbólico. Se é que era essa a intenção do Saunière. À primeira vista, os números pareciam perfeitamente aleatórios. Estava habituado a progressões
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simbólicas que fizessem alguma espécie de sentido, mas tudo ali -. o pentáculo, as palavras, os algarismos - parecia díspar ao nível mais fundamental.
- Afirmou há pouco - disse Fache - que todas as acções do conservador Saunière aqui na Galeria fizeram parte de um esforço para deixar uma mensagem... culto da deusa, ou qualquer coisa nessa linha? Como é que essa mensagem encaixa no que aqui temos?
Langdon sabia que a pergunta era retórica. Aquele estranho comunicado não encaixava de maneira nenhuma no seu cenário de culto da deusa.
O, draconiano demónio? Oh, santo imperfeito?
- O texto parece ser uma espécie de acusação - prosseguiu Fache. - Não concorda?
Langdon tentou imaginar os minutos finais de Jacques Saunière, fechado na Grande Galeria, sabendo que estava prestes a morrer. Parecia lógico.
- Uma acusação contra o seu assassino faz sentido, suponho.
- O meu trabalho, claro, consiste em pôr um nome nessa pessoa. Deixe-me perguntar-lhe o seguinte, senhor Langdon. A seu ver, tirando os números, o que é que esta mensagem tem de mais estranho?
Mais estranho? Um moribundo barricara-se na galeria, desenhara um pentáculo no próprio ventre e rabiscara uma misteriosa acusação no soalho. Tudo ali era estranho!
- A palavra "draconiano"? - arriscou, dizendo a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Langdon estava razoavelmente convencido de que uma referência a Draco, o implacável político do século VII a. C., era bastante improvável como último pensamento. - "Draconiano demónio" parece-me uma estranha escolha de palavras.
- Draconiano? - A voz de Fache soou com uma nota de impaciência. - A escolha de palavras de monsieur Saunière está longe de parecer-me aqui a questão mais importante.
Langdon não sabia muito bem que questão tinha Fache em mente, mas começou a suspeitar de que Draco e o capitão se teriam dado bastante bem.
- Jacques Saunière era francês - continuou Fache, secamente.
- Vivia em Paris. E no entanto, optou por escrever esta mensagem...
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- Em inglês - terminou Langdon, compreendendo agora aonde o capitão queria chegar.
Fache assentiu.
- Précisément. Alguma ideia do motivo?
Langdon sabia que Saunière falava impecavelmente inglês, mas não fazia a mínima ideia de que razão o levara a escolher essa língua a escrever as suas últimas palavras. Encolheu os ombros.
Fache voltou a apontar para o pentáculo traçado no ventre do cadáver.
- Nada a ver com o culto do diabo? Continua a ter a certeza?
Langdon já não tinha a certeza de coisa nenhuma.
- A simbologia e o texto parecem não coincidir. Lamento não poder ajudá-lo mais.
- Talvez isto torne as coisas um pouco mais claras. - Fache afastou-se do corpo e ergueu um pouco mais o projector de luz negra, fazendo o feixe incidir numa área maior. - E agora?
Para espanto de Langdon, um círculo rudimentar brilhou à volta do cadáver do conservador. Aparentemente, Saunière deitara-se de costas e fizera rodar a caneta de feltro à sua volta numa série de longos arcos, como que inscrevendo-se num círculo.
Num súbito relâmpago, o significado tornou-se claro.
- O Homem de Vitrúvio - ofegou Langdon. Saunière criara uma réplica em tamanho natural do mais célebre desenho de Leonardo da Vinci.
Considerado o desenho anatomicamente mais correcto da sua época, O Homem de Vitrúvio de da Vinci tornara-se, nos tempos modernos, um ícone da cultura, aparecendo representado em cartazes, bases para copos e T-shirts por todo o mundo. O famoso desenho consistia num círculo perfeito no qual estava inscrita a figura de um homem nu... de braços e pernas estendidos e abertos.
Da Vinci. Langdon sentiu um arrepio de espanto. A clareza das intenções de Saunière era inegável. Nos momentos finais da sua vida, o conservador do museu do Louvre despojara-se das roupas e dispusera o seu próprio corpo numa evidente reprodução de O Homem de Vitrúvio.
O círculo fora o elemento crítico que faltara. Sendo um símbolo de Protecção feminino, o círculo à volta do corpo do homem nu completava a mensagem de da Vinci: harmonia entre o masculino
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e o feminino. A questão era agora, no entanto, descobrir por que razão Saunière imitara o famoso desenho.
- Senhor Langdon - disse Fache -, sabe certamente que Leonardo da Vinci tinha uma tendência para as artes mais obscuras.
Langdon ficou surpreendido pela extensão do conhecimento do polícia sobre da Vinci, um conhecimento que sem dúvida contribuía muito para explicar as suas suspeitas a respeito de um culto diabólico. Da Vinci sempre fora um tema embaraçoso para os historiadores, especialmente na tradição cristã. Apesar do seu génio visionário, era um homossexual assumido e um adorador da divina ordem da Natureza, dois "crimes" que o colocavam em perpétuo estado de pecado contra Deus. Além disso, as bizarras excentricidades do artista projectavam uma aura admissivelmente demoníaca: da Vinci exumava cadáveres para estudar a anatomia humana, mantinha misteriosos diários numa ilegível escrita invertida, acreditava possuir o poder alquímico de transformar o chumbo em ouro, julgava-se até capaz de enganar Deus criando um elixir que adiava a morte, e as suas invenções incluíam horríveis e nunca antes imaginados instrumentos de guerra e de tortura.
A incompreensão gera desconfiança, pensou Langdon.
Até a vastíssima produção de deslumbrante arte cristã de da Vinci só servira para reforçar a sua reputação de hipocrisia espiritual. Aceitando centenas de lucrativas encomendas do Vaticano, Leonardo pintava temas religiosos não como uma expressão das suas próprias crenças mas como uma operação comercial - uma maneira de financiar o estilo de vida opulento que apreciava. Infelizmente, da Vinci era um brincalhão que muitas vezes se divertia a morder pela calada a mão que o alimentava. Incorporava em muitos dos seus quadros religiosos simbolismos escondidos que eram tudo menos cristãos: tributos às suas próprias convicções e um subtil manguito feito à Igreja. Langdon dera inclusivamente, na National Gallery de Londres, uma conferência subordinada ao tema: "A Vida Secreta de Leonardo: O Simbolismo Pagão na Arte Cristã".
- Compreendo a sua preocupação - disse -, mas da Vinci nunca chegou verdadeiramente a praticar qualquer espécie de artes negras. Era um homem excepcionalmente espiritual, ainda que em constante conflito com a Igreja. - E enquanto dizia estas palavras, um estranho pensamento acudiu-lhe ao espírito. Olhou novamente
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para a mensagem escrita no chão. Ó, draconiano demónio! Oh, santo imperfeito!
- Sim - incitou Fache.
Langdon pesou cuidadosamente as suas palavras.
- Estava só a pensar que o conservador Saunière partilhava muitas ideologias espirituais com da Vinci, incluindo a preocupação a tentativa da Igreja de eliminar o sagrado feminino da religião moderna. É possível que, ao imitar o famoso desenho de da Vinci, estivesse apenas a expressar a frustração que ambos partilhavam relativamente à demonização da deusa que a Igreja moderna leva a cabo.
Os olhos de Fache endureceram.
- Acha que monsieur Saunière está a chamar à Igreja santo imperfeito e demónio draconiano?
Langdon tinha de admitir que era um pouco forçado, embora o pentáculo parecesse, a um certo nível, dar força à ideia.
- Estou apenas a dizer que o senhor Saunière dedicou a vida a estudar a história da deusa, e que nada nem ninguém contribuiu mais para apagar essa história do que a Igreja Católica. Parece-me razoável que tivesse tentado exprimir o desapontamento que sentia no seu último adeus.
- Desapontamento? - perguntou Fache, agora abertamente hostil. - Esta mensagem parece mais enraivecida do que desapontada, diria eu.
Langdon estava a chegar ao fim da paciência.
- Capitão, pediu-me um palpite sobre o que o senhor Saunière poderia querer dizer, e é isso que lhe estou a dar.
- Que isto é uma acusação à Igreja? - Fache contraiu a mandíbula, falando por entre os dentes cerrados. - Senhor Langdon, tenho visto muita morte neste meu trabalho, e deixe-me dizer-lhe uma coisa. Quando um homem é morto por outro homem, não acredito que o seu último pensamento seja escrever uma obscura afirmação espiritual que ninguém compreenderá. Acredito que pensa numa única coisa. - A voz sibilada do capitão cortou o ar. - La vengeance. Acredito que o conservador Saunière escreveu isto para nos dizer quem o matou.
Langdon ficou a olhar para ele.
- Mas não faz qualquer espécie de sentido.
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- Não?
- Não - ripostou, cansado e frustrado. - Disse-me que o Senhor Saunière foi atacado no seu gabinete por alguém que aparentemente tinha convidado para lá entrar.
- Sim.
- Parece, portanto, razoável assumir que o conservador Saunière conhecia o seu atacante.
Fache assentiu.
- Continue.
- Se o senhor Saunière conhecia a pessoa que o matou, que espécie de acusação é esta? - Apontou para o chão. - Códigos numéricos? Santos imperfeitos? Demónios draconianos? Pentáculos desenhados na barriga? Tudo isto é demasiado críptico.
Fache franziu a testa, como se a ideia nunca lhe tivesse ocorrido.
- É verdade.
- Considerando as circunstâncias - continuou Langdon -, julgo que se Saunière quisesse dizer-nos quem o matou, teria escrito o nome dessa pessoa.
Quando Langdon acabou de dizer estas palavras, um sorriso de satisfação distendeu os lábios de Fache pela primeira vez em toda a noite.
- Précisément - disse. - Précisément.


Estou a testemunhar o trabalho de um mestre, pensou o tenente Collet enquanto ajustava os auscultadores e escutava as palavras de Fache. O agent supérieur sabia que tinham sido momentos como aquele que tinham elevado Fache aos pináculos da Polícia francesa.
O capitão Fache faz o que mais ninguém ousa fazer.
A delicada arte de cajoler era uma habilidade que a moderna investigação policial deixara morrer, uma arte que exigia uma excepcional compostura sob pressão. Poucos homens possuíam o sang-froid necessário para este tipo de operação, mas, em Fache, era como uma capacidade inata. A sua contenção e paciência roçavam o robótico.
A única emoção de Fache naquela noite parecia ser uma intensa determinação, como se capturar aquele criminoso fosse de algum modo uma questão pessoal. As instruções que dera aos seus agentes,
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uma hora antes, tinham sido inusitadamente sucintas e seguras. Sei quem assassinou o conservador Jacques Saunière, dissera. Sei o que tenho de fazer. Nada de erros, esta noite.
E até ao momento, nenhum erro fora cometido.
Collet ainda não conhecia as provas em que Fache baseava a sua certeza da culpabilidade do suspeito, mas sabia que mais valia não questionar os instintos do Touro. A intuição de Fache parecia por quase sobrenatural. Deus murmura-lhe ao ouvido, insistira certa vez um agente na sequência de uma demonstração particularmente impressionante do sexto sentido do capitão. Collet via-se forçado a admiti-lo: se havia um Deus, Fache fazia parte da sua lista especial de amigos. O capitão ouvia missa e confessava-se com zelosa regularidade - muito mais do que a frequência nos dias santos observada por outros altos funcionários em nome das boas relações públicas. Quando o Papa visitara Paris, alguns anos antes, Fache usara toda a sua influência para conseguir a honra de uma audiência, e agora tinha, pendurada na parede do gabinete, uma fotografia em que aparecia ao lado do pontífice. O Touro Papal, chamavam-lhe em segredo os seus subordinados.
Collet achava irónico o facto de as raras tomadas de posição públicas de Fache nos últimos anos terem sido para manifestar a sua virulenta reacção ao escândalo da pedofilia praticada por sacerdotes. Esses padres deviam ser enforcados duas vezes!, declarara. Uma pelos seus crimes contra as crianças, outra por enlamearem o bom-nome da Igreja Católica. Collet tinha a estranha sensação de que era este último crime que mais enfurecia o capitão Fache.
Voltando-se para o computador portátil, Collet passou a ocupar-se da outra metade das suas responsabilidades naquela noite: o sistema de localização GPS. A imagem no visor mostrava um plano pormenorizado da Ala Denon, fornecido pelo Gabinete de Segurança do Louvre. Seguindo com os olhos o labirinto de galerias e corredores, depressa encontrou o que procurava. Bem no coração da Grande Galeria, um minúsculo ponto vermelho piscava.
La marque.
Fache mantinha a sua presa com rédea curta. E por boas razões. Robert Langdon já provara ser um sujeito muito esperto.
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>CAPÍTULO NOVE

Para ter a certeza de que a sua conversa com o senhor Langdon não seria interrompida, Bezu Fache desligara o telemóvel. Infelizmente, tratava-se de um modelo dos mais caros, equipado com um rádio bi-direccional que, contrariando as suas ordens, um dos agentes estava naquele preciso instante a usar para contactá-lo.
- Capitaine - crepitou o telefone, como um walkie-talkie.
Fache cerrou os dentes, furioso. Não conseguia imaginar qualquer razão suficientemente importante para que Collet interrompesse aquela surveillance cachée, sobretudo num ponto tão decisivo.
Dirigiu a Langdon um calmo olhar de desculpa.
- Um momento, por favor. - Tirou o telefone do cinto e premiu o botão do rádio. - Oui?
- Capitaine, un agent du Département de Cryptologie est arrivé. A fúria de Fache evaporou-se instantaneamente. Um criptólogo? Embora a escolha do momento tivesse sido péssima, tratava-se provavelmente de boas notícias. Depois de ter descoberto o críptico texto de Saunière no chão da Galeria, Fache enviara por computador fotos do local do crime para o Departamento de Criptologia, na esperança de que alguém conseguisse explicar-lhe o que estava o conservador a tentar dizer. A chegada do criptólogo devia significar que alguém conseguira decifrar a mensagem.
- Neste momento estou ocupado - disse Fache, e o seu tom deixava bem claro que alguém tinha pisado uma linha. - Diga ao criptólogo que espere no posto de comando. Falarei com ele quando terminar.
- Com ela - corrigiu a voz. - É a agente Neveu.
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Fache estava a achar cada vez menos graça àquela chamada. Sophie Neveu era um dos maiores erros da DCPJ. Uma jovem déchiffreuse parisiense que estudara criptografia em Inglaterra, no Royal Holloway, Sophie Neveu fora impingida a Fache dois anos, no âmbito da tentativa do ministério de incorporar mais mulheres na força policial. Esta incursão do ministro no politicamente correcto estava, na opinião de Fache, a enfraquecer o Departamento. As mulheres não só não tinham as qualidades físicas exigidas pelo trabalho na Polícia, como a sua simples presença constituía uma perigosa distracção para os agentes em campo. Como Fache sempre temera, Sophie Neveu estava a revelar-se mais distraída do que a maior parte das suas colegas.
Com trinta e dois anos, tinha uma determinação que raiava o obstinado. A sua entusiástica adesão à nova metodologia criptológica britânica exasperava os veteranos criptólogos franceses mais graduados. E, o que era de longe o aspecto mais perturbador para Fache, havia a inescapável verdade universal de que, num escritório cheio de homens de meia-idade, a presença de uma jovem atraente desviava inevitavelmente as atenções do trabalho em curso.
- A agente Neveu insiste em falar consigo imediatamente, capitão - disse o homem que falava pelo rádio. - Tentei impedi-la, mas já vai a caminho da Galeria.
Fache recuou um passo, incrédulo.
- Isso é inaceitável! Dei ordens expressas...


Por um instante, Robert Langdon pensou que Bezu Fache estava a sofrer uma apoplexia. O capitão ia a meio da frase quando parou de mover o queixo e esbugalhou os olhos, coruscantemente fixos num ponto acima do ombro dele. Antes que pudesse voltar-se, ouviu uma voz feminina dizer nas suas costas:
- Excusez-moi, messieurs.
Langdon completou a volta e viu uma jovem aproximar-se. Caminhava pelo corredor em direcção a eles com passadas longas e fluidas... e um ar de absoluta segurança. Vestia informalmente - um comprido camisolão de lã creme que lhe chegava aos joelhos e calças pretas -, era atraente e poderia andar por volta dos trinta anos - Os espessos cabelos castanhos caíam-lhe soltos sobre os ombros,
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emoldurando um rosto agradável. Ao contrário das falsas louras deslavadas que adornavam as paredes das cataratas de Harvard, aquela mulher era saudável, com uma beleza sem retoques e uma autenticidade que irradiavam uma autoconfiança impressionante.
Para seu enorme espanto, a mulher avançou directamente para ele e estendeu-lhe a mão.
- Monsieur Langdon, sou a agente Neveu, do Departamento de Criptologia da DCPJ. - As palavras pareciam enrolar-se agradavelmente à volta do ligeiro sotaque franco-inglês. - É um prazer conhecê-lo.
Langdon apertou-lhe a mão macia e sentiu-se por um instante preso ao olhar dela. Tinha uns olhos verde-azeitona, incisivos e límpidos.
Fache inspirou fundo, claramente a preparar-se para disparar uma reprimenda.
- Capitão - disse ela, voltando-se rapidamente e adiantando-se-lhe -, peço desculpa pela interrupção, mas...
- Ce n'est pas le moment! - rosnou Fache.
- Tentei telefonar-lhe - continuou Sophie, falando em inglês, como que num gesto de cortesia para com Langdon -, mas o seu telemóvel estava desligado.
- Desliguei-o por uma boa razão - sibilou Fache. - Estou a falar com o senhor Langdon.
- Decifrei o código numérico - anunciou ela, calmamente.
Langdon sentiu o pulso bater mais depressa. Decifrou o código?
Fache deu a impressão de não saber muito bem como reagir.
- Antes de explicar - continuou Sophie -, tenho uma mensagem urgente para o senhor Langdon.
O rosto de Fache adquiriu uma expressão de profunda contrariedade.
- Para o senhor Langdon?
Sophie assentiu, voltando-se de novo para Langdon.
- A sua embaixada pede-lhe que entre em contacto, senhor Langdon. Têm uma mensagem para si, dos Estados Unidos.
Langdon reagiu com surpresa. A excitação que sentira por causa do código deu lugar a uma vaga preocupação. Uma mensagem dos Estados Unidos? Tentou imaginar quem poderia estar a tentar entrar
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em contacto com ele. Só alguns colegas de Harvard sabiam que se encontrava em Paris.
Fache contraiu a larga mandíbula ao ouvir a notícia.
- A embaixada dos Estados Unidos? - perguntou, com um ar desconfiado. - Como souberam eles que poderiam encontrar o senhor Langdon aqui?
Sophie encolheu os ombros.
- Aparentemente, telefonaram para o hotel e o concierge disse-lhes que o senhor Langdon tinha saído com um agente da DCPJ.
Fache parecia confuso.
- E a embaixada contactou o Departamento de Criptologia da DCPJ?
- Não, senhor - respondeu Sophie, em tom firme. - Quando liguei para a central da DCPJ a tentar contactá-lo a si, tinham uma mensagem para o senhor Langdon e pediram-me que lha transmitisse, se conseguisse apanhá-lo.
A testa de Fache cavou-se numa ruga de aparente confusão. Abriu a boca para falar, mas já Sophie tornara a voltar-se para Langdon.
- Senhor Langdon - disse, tirando do bolso um pequeno pedaço de papel -, tenho aqui o número do serviço de mensagens da embaixada. Pedem-lhe que telefone logo que possa. - Entregou-lhe o papel, olhando-o fixamente. - É melhor fazer a chamada enquanto eu explico o código ao capitão Fache.
Langdon estudou o pedaço de papel. Tinha um número de telefone de Paris e o de uma extensão.
- Obrigado - disse, agora francamente preocupado. - Onde é que encontro um telefone?
Sophie começou a extrair um telemóvel do bolso do camisolão, mas Fache afastou-a com um gesto da mão. Parecia o Vesúvio pronto a entrar em erupção. Sem desviar os olhos de Sophie, pegou no seu próprio telemóvel e ofereceu-o.
- Esta linha é segura, senhor Langdon, Pode usá-la.
Langdon não conseguia perceber porque diabo estava Fache tão zangado com a jovem. Sentindo-se pouco à-vontade, aceitou o telemóvel. Fache arrastou imediatamente Sophie para alguns metros mais longe e pôs-se a descompô-la em voz baixa. Simpatizando cada
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vez menos com o capitão, Langdon voltou as costas à estranha confrontação e ligou o telemóvel. Depois de verificar o pedaço de papel que Sophie lhe tinha dado, marcou o número.
Ouviu o sinal de chamada.
Um toque... dois toques... três toques...
Finalmente, a ligação foi estabelecida.
Langdon esperava ouvir a telefonista da embaixada, mas, em vez disso, deu por si a escutar um atendedor automático. Estranhamente, reconheceu a voz gravada na fita. Era a de Sophie Neveu.
- Bonjour, vous êtes bien chez Sophie Neveu - disse a voz de mulher. -Je suis absente pour le moment, mais...
Confuso, Langdon voltou-se para Sophie.
- Desculpe, senhora Neveu? Julgo que deve ter-me dado...
- Não, não, é o número correcto - interrompeu-o rapidamente Sophie, como se já estivesse à espera da confusão dele. A embaixada tem um sistema de mensagens automático. Tem de marcar um código de acesso para receber as suas mensagens.
- Mas... - começou Langdon.
- É o número de três dígitos que está no papel que lhe dei.
Langdon abriu a boca para explicar o estranho engano, mas Sophie lançou-lhe um olhar imperioso que durou apenas um instante. Os olhos verdes enviaram uma mensagem clara como a água:
Não faça perguntas. Ligue.
Cada vez mais confuso, Langdon marcou o número da extensão escrito no pedaço de papel: 454.
A mensagem gravada de Sophie foi imediatamente interrompida e Langdon ouviu uma voz electrónica anunciar em francês: "Tem uma mensagem nova." Aparentemente, 454 era o código de acesso remoto de Sophie para ouvir as suas mensagens quando estava fora de casa.
Vou ouvir as mensagens desta mulher?
Langdon ouviu a fita rebobinar. Finalmente, parou, e a máquina voltou a arrancar. Langdon escutou. Mais uma vez, a voz era de Sophie.
- "Senhor Langdon" - dizia, num tom temeroso -, "não reaja a esta mensagem. Limite-se a ouvir calmamente. Encontra-se em perigo neste preciso instante. Siga à risca as minhas instruções."
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>CAPÍTULO DEZ

Silas estava sentado ao volante do Audi preto que o Professor lhe arranjara, a olhar para a grande igreja de Saint-Sulpice. Iluminadas de baixo pela bateria de projectores, as duas torres sineiras erguiam-se como firmes sentinelas acima do comprido corpo do edifício. De ambos os flancos, mergulhadas na sombra, sobressaía uma fila de elegantes arcobotantes, como as costelas de um belo animal.
Os infiéis usaram uma casa de Deus para esconder a Chave de Abóbada. Mais uma vez, a irmandade confirmara a sua lendária reputação de impostura e engano. Silas desejava ardentemente encontrar a Chave de Abóbada e entregá-la ao Professor, para que pudessem finalmente recuperar aquilo que a irmandade tinha havia tanto tempo roubado aos fiéis.
Que poderosa vai tornar-se a Opus Dei.
Estacionando o Audi na grande Place de Saint-Sulpice, deserta aquela hora, expeliu com força o ar dos pulmões, a fim de preparar o espírito para a tarefa que tinha pela frente. As amplas costas ainda lhe doíam da mortificação corporal a que se sujeitara havia pouco mais de uma hora, e no entanto essa dor era insignificante em comparação com a angústia da sua vida antes de a Opus Dei o ter salvado.
Mesmo assim, as recordações assombravam-lhe a alma.
Liberta o teu ódio, ordenou a si mesmo. Perdoa àqueles que te ofenderam.
Ao olhar para as torres de pedra de Saint-Sulpice, Silas sentiu o seu tão conhecido refluxo... aquela força que tantas vezes lhe arrastava o espírito para trás no tempo, voltando a fechá-lo na prisão que
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fora o seu mundo quando jovem. As recordações do purgatório chegaram, como sempre faziam, como uma tempestade para os sentidos... o cheiro a couves podres, o fedor a morte, a urina e fezes humanas. Os gritos de desesperança a perderem-se no vento uivante dos Pirenéus e os soluços abafados de homens abandonados.
Andorra, pensou, sentindo os músculos contraírem-se.
Incrivelmente, fora naquele estéril e esquecido principado, entre a França e Espanha, a tiritar na sua cela de pedra, desejando apenas morrer, que tinha sido salvo.
Embora na altura o não soubesse.
O relâmpago veio muito depois do trovão.
Nesse tempo não se chamava Silas, embora já não se lembrasse do nome que o pai e a mãe lhe tinham dado. Saíra de casa quando tinha sete anos. O pai alcoólico, um corpulento trabalhador das docas, furioso com a chegada de um filho albino, espancava regularmente a mulher, culpando-a a ela da embaraçadora condição do rapaz. E quando o filho tentava defender a mãe, era igualmente sovado.
Uma noite, houve uma luta terrível, e a mãe não voltou a levantar-se. O rapaz ficou a contemplar o corpo sem vida, sentindo uma intolerável vaga de culpa por ter permitido que aquilo acontecesse.
Sou eu o culpado!
Como se uma espécie de demónio lhe controlasse o corpo, foi à cozinha e pegou numa grande faca de talhante. Hipnotizado, dirigiu-se ao quarto onde o pai jazia estendido na cama, mergulhado num estupor alcoólico. Sem dizer uma palavra, o rapaz cravou-lhe a faca nas costas. O pai gritou de dor e tentou voltar-se, mas o filho voltou a esfaqueá-lo, uma e outra vez, até que a casa ficou silenciosa.
O rapaz fugiu de casa, mas encontrou as ruas de Marselha igualmente inóspitas. O seu aspecto estranho fazia dele um marginal entre os outros jovens foragidos, e foi obrigado a viver sozinho na cave de uma fábrica abandonada, comendo fruta roubada e peixe apanhado nas docas. As suas únicas companhias eram as esfarrapadas revistas que encontrava no lixo, e com elas aprendeu sozinho a ler. Com o tempo, tornou-se forte. Quando tinha doze anos, uma outra alma perdida, uma rapariga duas vezes mais velha, troçou dele na rua e tentou roubar-lhe a comida. O rapaz bateu-lhe quase até a matar. Quando o arrancaram de cima dela, as autoridades fizeram-lhe um ultimato: sair de Marselha ou ir para um reformatório.
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O rapaz desceu a costa até Toulon. A medida que os anos passavam os olhares de piedade na rua transformaram-se em olhares de medo. O rapaz crescera, era agora um jovem poderosamente constituído. Quando as pessoas se cruzavam com ele, ouvia-as murmurar entre si. Um fantasma, diziam, de olhos muito abertos de medo ao verem-lhe a pele branca. Um fantasma com olhos de demónio!
E ele sentia-se como um fantasma... transparente... flutuando de porto em porto.
As pessoas pareciam olhar através dele.
Aos dezoito anos, numa cidade portuária, quando tentava roubar uma caixa de presunto curado de um cargueiro, foi apanhado por dois tripulantes. Os dois marinheiros que começaram a bater-lhe cheiravam a cerveja, como o pai. As recordações de medo e de ódio subiram à superfície como um monstro vindo das profundezas. Partiu o pescoço do primeiro marinheiro com as mãos nuas, e só a chegada da polícia salvou o segundo da mesma sorte.
Dois meses mais tarde, de grilhetas nos pulsos e nos tornozelos, chegou a uma prisão em Andorra.
És branco como um fantasma, troçaram os outros presos quando os guardas o escoltaram até à cela, nu e gelado. Mira el espectro. Talvez o fantasma passe através das paredes!
No decurso dos anos, a pele e a alma do jovem mirraram até que ele soube que era transparente.
Sou um fantasma.
Não tenho peso.
Yo soy un espectro... pálido como un fantasma... caminando este mundo a solas.
Uma noite, o Fantasma foi acordado pelos gritos dos companheiros de prisão. Não sabia que força invisível sacudia o chão onde estava deitado, nem que mão poderosa fazia tremer a argamassa da sua cela de pedra, mas quando se levantou de um salto, um pedregulho enorme caiu no lugar exacto onde estivera a dormir. Erguendo os olhos para ver de onde viera a pedra, descobriu um buraco na parede que tremia e, para lá dele, algo que não via havia mais de dez anos. A Lua.
Enquanto a terra ainda tremia, o Fantasma deu por si a rastejar pelo estreito túnel, saiu a cambalear para o ar livre, desceu a encosta da montanha em direcção aos bosques. Correu toda a noite, sempre a descer, delirante de fome e de cansaço.
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À beira da inconsciência, viu-se, ao nascer do dia, num espaço aberto onde uma linha-férrea rasgava uma cicatriz na floresta. Continuou a caminhar como num sonho, seguindo os carris. Vendo uma carruagem vazia, enfiou-se nela, em busca de abrigo e descanso. Quando acordou, o comboio estava em andamento. Há quanto tempo? Onde estou? Uma dor a crescer-lhe nas entranhas. Estarei a morrer? Voltou a dormir. Desta vez, acordou com alguém a gritar com ele, a bater-lhe, a atirá-lo para fora do vagão de carga. Coberto de sangue, deambulou pelos arredores de uma pequena aldeia, procurando em vão qualquer coisa que comer. Finalmente, demasiado fraco para dar mais um passo, deixou-se cair na berma da estrada e mergulhou na inconsciência.
A luz veio lentamente, e o Fantasma perguntou a si mesmo quanto tempo estivera morto. Um dia? Três dias? Não importava. A cama era macia como uma nuvem, e o ar à volta dele tinha o cheiro doce de velas. Jesus estava lá, a olhar para ele. Estou aqui, disse Jesus. A pedra foi rolada para o lado, e tu voltaste a nascer.
Dormiu e acordou. O nevoeiro envolveu-lhe os sonhos. Nunca acreditara no paraíso, e no entanto Jesus estava a velar por ele. Apareceu comida junto à cama, e o Fantasma comeu-a, quase capaz de sentir a carne a materializar-se-lhe nos ossos. Voltou a adormecer. Quando acordou, Jesus continuava a sorrir-lhe, e disse: Estás salvo, meu filho. Abençoados aqueles que seguem o meu caminho.
Adormeceu mais uma vez.
Foi um grito de angústia que arrancou o Fantasma ao sono. O seu corpo saltou da cama e avançou tropegamente pelo corredor em direcção ao som dos gritos. Entrou numa cozinha e viu um homem grande a bater noutro mais pequeno. Sem saber porquê, o Fantasma agarrou o homem grande e atirou-o contra a parede. O homem fugiu, deixando o Fantasma a olhar para o corpo estendido de um jovem que vestia uma sotaina de padre. Tinha o nariz partido. Erguendo-o nos braços, o Fantasma levou-o para um sofá.
- Obrigado, meu amigo - disse o padre, num francês desajeitado. - O dinheiro das esmolas é uma tentação para os ladrões. Falaste francês no teu sono. Também falas espanhol?
O Fantasma abanou a cabeça.
- Como te chamas?
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O Fantasma não se lembrava do nome que os pais lhe tinham dado. Tudo o que ouvia eram as insultuosas alcunhas dos guardas na prisão.
O padre sorriu.
- No hay problema. Chamo-me Manuel Aringarosa, sou missionário e vim de Madrid. Mandaram-me para aqui construir uma igreja para a Obra de Dios.
- Onde estou? - A voz dele soou cava.
- Em Oviedo. No Norte de Espanha.
- Como foi que aqui cheguei?
- Alguém te deixou à minha porta. Estavas doente. Dei-te de comer. Estás aqui há muitos dias.
O Fantasma estudou o seu jovem salvador. Havia já muitos anos que ninguém tinha para com ele um gesto de bondade.
- Obrigado, padre.
O padre levou um dedo aos lábios ensanguentados.
- Eu é que tenho de estar-te agradecido, meu amigo.
Quando o Fantasma acordou na manhã seguinte, o mundo pareceu-lhe mais claro. Olhou para o crucifixo pregado na parede por cima da cama. Apesar de já não lhe falar, sentiu uma aura reconfortante na sua presença. Sentando-se na cama, ficou surpreendido ao ver um recorte de jornal em cima da mesa-de-cabeceira. O artigo estava redigido em francês e tinha data da semana anterior. Quando leu a história, encheu-se de medo. Falava de um tremor de terra, na montanha que destruíra uma prisão e libertara vários criminosos perigosos.
O coração começou a martelar-lhe o peito. O padre sabe quem eu sou! Sentiu então algo que havia muitos anos não sentia. Vergonha. Culpa. À mistura com o medo de ser apanhado. Saltou da cama. Para onde posso fugir?
- O Livro dos Actos - disse uma voz, da porta. O Fantasma voltou-se, assustado.
O jovem padre sorria ao entrar no quarto. Tinha um penso desajeitadamente feito no nariz e estendia-lhe uma velha Bíblia.
- Encontrei uma em francês, para ti. O capítulo está marcado.
Inseguro, o Fantasma pegou na Bíblia e olhou para o capítulo que o padre marcara.
Actos 16.
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Os versículos falavam de um preso chamado Silas que jazia nu e espancado na sua cela, a cantar hinos a Deus. Quando chegou ao versículo 26, o Fantasma abriu a boca de espanto.
"... Subitamente, houve um grande terramoto, de modo que os alicerces da prisão foram abalados, e todas as portas caíram."
Ergueu vivamente os olhos para o padre.
O padre sorriu-lhe carinhosamente.
- Doravante, meu amigo, se não tens outro nome, passarei a chamar-te Silas.
O Fantasma assentiu. Silas. Fora-lhe dada carne. O meu nome é Silas.
- São horas do pequeno-almoço - disse o padre. - Vais ter de recuperar as forças, para me ajudares a construir esta igreja.


Seis mil e quinhentos metros acima do Atlântico, o voo 1618 da Alitalia era sacudido pela turbulência, e os passageiros agitavam-se, nervosos. O bispo Aringarosa quase não se deu conta. Os seus pensamentos concentravam-se no futuro da Opus Dei. Ansioso por saber como estavam a correr as coisas em Paris, desejava poder telefonar a Silas. Mas não podia. O Professor ocupara-se disso.
- É para sua própria segurança - explicara o Professor, falando em inglês com sotaque francês. - Conheço o suficiente sobre comunicações electrónicas para saber que podem ser interceptadas. As consequências poderiam ser desastrosas para si.
Aringarosa sabia que ele tinha razão. O Professor parecia ser um homem excepcionalmente cuidadoso. Não lhe revelara a sua identidade, e no entanto provara ser alguém que merecia ser obedecido. Ao fim e ao cabo, conseguira uma informação secretíssima. Os nomes dos quatro principais membros da irmandade! Fora esta uma das razões que convenceram o bispo Aringarosa de que o Professor era verdadeiramente capaz de obter o espantoso prémio que afirmava ter ao seu alcance.
- Bispo - dissera-lhe o Professor -, tratei de tudo. Para que o meu plano tenha êxito, tem de permitir que o Silas responda unicamente a mim durante alguns dias. Não falarão um com o outro. Comunicarei com ele através de canais seguros.
- Tratá-lo-á com respeito?
- Um homem de fé merece-o ao mais alto grau.
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- Muito bem. Compreendo. Eu e o Silas não voltaremos a falar até isto estar resolvido.
- Faço isto para proteger a sua identidade, a identidade de Silas e o meu investimento.
- O seu investimento?
- Bispo, se a sua ânsia de manter-se a par dos progressos o atirar para uma prisão, não poderá pagar os meus honorários.
O bispo sorrira.
- Tem razão. Os nossos desejos são coincidentes. Fique com Deus.
Vinte milhões de euros, pensou o bispo, olhando pela janela do avião. Aproximadamente o mesmo em dólares americanos. Uma ninharia por uma coisa tão formidável.
Sentiu uma renovada confiança em que o Professor e Silas não falhariam. O dinheiro e a fé eram motivações muito poderosas.
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>CAPÍTULO ONZE

- Une plaisanterie numérique? - Bezu Fache estava lívido, a olhar, incrédulo e furioso, para Sophie Neveu. Uma brincadeira numérica? - A sua opinião profissional sobre o código do conservador Saunière é que se trata de uma brincadeira matemática?
Fache não conseguia compreender a ousadia daquela mulher. Não só acabava de aparecer ali sem autorização, como estava agora a tentar convencê-lo de que Saunière, nos momentos finais da sua vida, se lembrara de deixar-lhes uma charada numérica.
- Este código - explicou rapidamente Sophie, em francês é simplista ao ponto da absurdidade. Monsieur Saunière deve ter sabido que o decifraríamos imediatamente. - Tirou um pedaço de papel do bolso do camisolão e estendeu-o a Fache. - Aqui tem a solução.
Fache olhou para o papel.

1-1-2-3-5-8-13-21

- Só isto? - ladrou. - Tudo o que fez foi pôr os números por ordem crescente.
Sophie teve o descaramento de esboçar um sorriso satisfeito.
- Exactamente
O tom de Fache desceu para um rosnido gutural.
- Agente Neveu, não faço ideia de para onde diabo vai com isto, mas sugiro que chegue lá depressa. - Lançou um olhar ansioso a Langdon, que estava ali perto com o telemóvel encostado ao ouvido, aparentemente ainda a escutar a mensagem da embaixada americana.
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Pela lividez que lhe cobria o rosto, deduziu que eram más notícias.
- Capitão - disse Sophie, num tom perigosamente desafiador -, a sequência de números que tem na mão é uma das mais famosas progressões matemáticas da História.
Fache não imaginava que existisse sequer uma progressão matemática que merecesse o epíteto de famosa, e com toda a certeza não gostou do tom deslocado de Sophie.
É a sequência Fibonacci - continuou ela, apontando para o pedaço de papel que Fache continuava a segurar. - Uma progressão em que cada termo é igual à soma dos dois que o antecedem.
Fache estudou os números. Cada termo era de facto igual à soma dos dois anteriores, mas continuava a não ver que relevância poderia tudo aquilo ter no caso da morte de Jacques Saunière.
- O matemático Leonardo Fibonacci criou essa sucessão de números no século XIII. Obviamente, não pode ser coincidência o facto de todos os números que o conservador Saunière escreveu no chão pertencerem à famosa sequência Fibonacci.
Fache ficou a olhar para ela durante vários instantes.
- Muito bem, se não é coincidência, fará o favor de me explicar por que razão decidiu Jacques Saunière fazer esta coisa? Que está ele a dizer? O que é que isto significa?
Sophie encolheu os ombros.
- Absolutamente nada. É essa a questão. Trata-se de uma brincadeira criptográfica extremamente simplista. Como pegar nas palavras de um poema famoso e dispô-las de uma forma aleatória para ver se alguém consegue perceber o que todas elas têm em comum.
Fache deu um ameaçador passo em frente, colocando o rosto a poucos centímetros do de Sophie.
- Espero com toda a franqueza que tenha uma explicação muito mais satisfatória do que essa.
As feições de Sophie tornaram-se surpreendentemente duras quando replicou:
- Capitão, considerando o que tem aqui em jogo esta noite, julguei que gostaria de saber que há a possibilidade de o conservador Saunière estar a brincar consigo. Parece não ser o caso. vou informar o director da Criptologia de que já não precisa dos nossos serviços.
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E com esta ameaça, fez meia volta e afastou-se pelo caminho por onde tinha vindo.


Aturdido, Fache viu-a desaparecer na escuridão. Terá enlouquecido? Sophie Neveu acabava de redefinir o conceito de suicide professionnel.
Voltou-se para Langdon, que continuava ao telefone com um ar ainda mais preocupado do que antes, ouvindo atentamente a sua mensagem, da embaixada americana. Bezu Fache desprezava muitas coisas... mas poucas lhe mereciam tanta raiva como a embaixada americana.
Fache e o embaixador entravam em conflito numa base regular por causa de assuntos de Estado comuns - sendo o campo de batalha mais frequente a aplicação da lei aos cidadãos americanos de visita a França. Quase todos os dias, a DCPJ prendia estudantes americanos dos programas de intercâmbio por posse de drogas, homens de negócios americanos por solicitarem os serviços de prostitutas menores de idade, turistas americanos por furtos em lojas e destruição de propriedade. Legalmente, a embaixada podia intervir e extraditar os cidadãos culpados de volta para os Estados Unidos, onde se safavam com uma simples reprimenda.
E era o que a embaixada invariavelmente fazia.
L'émasculation de la Police Judiciaire, chamava-lhe Fache. A Paris Match publicara recentemente um cartoon em que Fache aparecia como um cão-polícia a tentar morder um criminoso americano, mas a ser impedido de o fazer por estar acorrentado à embaixada dos Estados Unidos.
Mas não esta noite, pensou Fache. Há demasiado em jogo.
Quando desligou o telefone, Robert Langdon parecia doente.
- Tudo bem? - perguntou Fache. Langdon abanou debilmente a cabeça.
Más notícias de casa, calculou Fache, notando que Langdon transpirava ligeiramente ao devolver-lhe o telemóvel.
- Um acidente - murmurou Langdon, olhando para o capitão com uma expressão estranha. - Um amigo... - Fez uma pausa. - Tenho de regressar a casa logo de manhã.
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Fache não tinha a mínima dúvida de que o choque reflectido na expressão de Langdon era genuíno, mas sentiu que havia ali uma outra emoção, como se um medo distante estivesse de repente a tremeluzir nos olhos do americano.
- Lamento muito - disse, observando Langdon com atenção. - Quer sentar-se? - perguntou, apontando para um dos bancos da galeria.
Langdon assentiu com um ar ausente e deu alguns passos na direcção do banco. Então deteve-se, parecendo cada vez mais confuso.
- Na realidade, acho que preciso de utilizar os lavabos.
Fache franziu mentalmente o sobrolho, irritado pelo atraso.
- Os lavabos. Com certeza. Façamos uma pausa de alguns minutos. - Apontou na direcção de onde tinham vindo. - Os lavados ficam perto do gabinete do conservador.
Langdon hesitou, apontando por sua vez na direcção oposta, para o outro extremo da galeria.
- Se bem me lembro, há uns lavabos bem mais perto, ali ao fundo.
Fache apercebeu-se de que Langdon tinha razão. Estavam a cerca de dois terços do comprimento da Galeria, que terminava daquele lado num par de lavabos.
- Quer que vá consigo?
Langdon abanou a cabeça, já a afastar-se.
- Não é necessário. Acho que gostaria de ficar sozinho por alguns minutos.
Fache não ficou muito entusiasmado com a ideia de ter Langdon a deambular sozinho por ali, mas consolou-se ao pensar que a Grande Galeria era um beco cuja única saída se situava precisamente no extremo oposto: a grade por baixo da qual tinham entrado. Embora os regulamentos do Departamento de Incêndios exigissem várias saídas de emergência num espaço tão vasto como aquele, essas saídas tinham sido automaticamente seladas quando Saunière accionara o sistema de segurança. Claro que o sistema fora entretanto restabelecido, mas não importava: as portas exteriores, se abertas, fariam disparar o alarme, e, além disso, estavam vigiadas Por agentes da DCPJ. Langdon não tinha meio de sair dali sem que ele o visse.
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- Tenho de regressar por um instante ao gabinete do conservador Saunière - disse. - Por favor, vá directamente lá ter comigo, senhor Langdon. Há outras coisas que precisamos de discutir.
Langdon fez-lhe um lento aceno com a mão antes de desaparecer nas sombras.
Fazendo meia volta, Fache caminhou irritadamente na direcção oposta. Chegado à grade, passou por baixo dela, seguiu o corredor e entrou de rompante no posto de comando instalado no gabinete de Saunière.
- Quem autorizou Sophie Neveu a entrar neste edifício? berrou.
Collet foi o primeiro a responder:
- Ela disse aos guardas no exterior que tinha decifrado o código.
Fache olhou em redor.
- Foi-se embora?
- Não está consigo?
- Foi-se embora. - Fache lançou um olhar ao corredor mergulhado em escuridão. Aparentemente, Sophie não se sentira com disposição para conversas com os colegas a caminho da saída.
Por um instante, considerou a possibilidade de contactar os guardas colocados no átrio subterrâneo e ordenar-lhes que detivessem Sophie e a arrastassem de volta ao gabinete antes que pudesse abandonar o local. Mas então pensou melhor. Apercebeu-se de que aquilo era apenas o seu orgulho a falar... querer ter a última palavra. Já tivera distracções mais do que suficientes naquela noite.
Trata da agente Neveu mais tarde, disse a si mesmo, já a antecipar o prazer de pô-la na rua.
Expulsando Sophie dos seus pensamentos, ficou por instantes a olhar para o cavaleiro miniatura de pé em cima da secretária de Saunière. Voltou-se então para Collet.
- Tem-no no visor?
Collet assentiu com a cabeça e fez rodar o computador. O ponto vermelho era claramente visível no plano do piso, a piscar metodicamente numa divisão marcada com as palavras TOILETTES PUBLIQUES.
- Óptimo - disse Fache, acendendo um cigarro e saindo para o corredor. - Tenho de fazer um telefonema. Certifique-se de que os lavabos são o único lugar aonde o Langdon vai.
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>CAPÍTULO DOZE

Robert Langdon sentiu-se ligeiramente tonto enquanto se encaminhava para o fundo da Grande Galeria, repassando mentalmente a mensagem telefónica de Sophie. No fim do corredor, sinais iluminados com as silhuetas masculina e feminina que em todo o mundo eram reconhecidas como símbolo das instalações sanitárias guiaram-no através de uma espécie de labirinto de divisórias decoradas com gravuras italianas e destinadas a ocultar os lavabos da vista dos visitantes.
Encontrou o dos homens, abriu a porta e acendeu a luz.
Estava vazio.
Dirigiu-se aos lavatórios, molhou a cara com água fria, tentando acordar. Duas luzes fluorescentes reflectiam-se nos azulejos brancos e o local cheirava a amónia. Quando estava a secar o rosto com a toalha, ouviu a porta abrir-se atrás dele. Voltou-se vivamente.
Sophie Neveu entrou, com uma expressão de medo nos olhos verde-acinzentados.
- Ainda bem que veio. Não temos muito tempo.
Langdon ficou onde estava, a olhar, confuso, para a agente Sophie Neveu, do Departamento de Criptologia da DCPJ. Minutos antes, ouvira a mensagem dela, pensando que a recém-aparecida criptóloga devia ser louca. E no entanto, quanto mais ouvia, mais se convencia de que Sophie Neveu estava a falar a sério. (Não reaja a essa Mensagem. Limite-se a ouvir calmamente. Encontra-se em perigo neste preciso instante. Siga à risca as minhas instruções.) Cheio de incertezas, decidira fazer exactamente o que Sophie sugeria. Dissera a Fache que a mensagem telefónica era a respeito de um amigo que
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sofrera um acidente, nos Estados Unidos. Depois pedira para utilizar os lavabos do fundo da Grande Galeria.
Sophie estava agora ali à sua frente, ainda a ofegar depois de ter voltado para trás a correr. À luz fluorescente, Langdon ficou surpreendido ao verificar que o seu ar de inflexível determinação irradiava de umas feições inesperadamente suaves. Só o olhar era penetrante, e a justaposição evocava imagens de um retrato de Renoir com várias camadas... velado mas claro, com uma ousadia que de um certo modo conservava o seu véu de mistério.
- Queria avisá-lo, senhor Langdon... - começou Sophie, ainda a tentar normalizar a respiração -, de que se encontra sous surveillance cachée. Sob observação dissimulada. - Enquanto falava, o seu inglês com sotaque ecoava nas paredes de azulejos, dando-lhe à voz um timbre cavo.
- Mas... porquê? - perguntou Langdon. Sophie já lhe dera uma explicação pelo telefone, mas queria ouvi-la da boca dela.
- Porque - respondeu Sophie, dando um passo em frente -, para o capitão Fache, o principal suspeito deste assassínio é o senhor.
Langdon estava preparado para as palavras, mas mesmo assim continuaram a parecer-lhe perfeitamente ridículas. Segundo Sophie, tinham-no levado ao Louvre, naquela noite, não como simbologista e sim como suspeito, e estava, naquele preciso instante, a ser o alvo involuntário de um dos métodos de interrogatório preferidos da DCPJ - a surveillance cachée -, um hábil engano em que a Polícia convidava calmamente o suspeito para o local do crime e o interrogava na esperança de que o nervosismo o levasse a um deslize auto-incriminatório.
- Veja no bolso esquerdo do seu casaco - disse Sophie. Encontrará uma prova de que estão a vigiá-lo.
Langdon sentia-se cada vez mais apreensivo. Ver no bolso? Tudo aquilo soava a truque de magia de feira.
- Veja - insistiu Sophie.
Confuso, Langdon meteu a mão no bolso esquerdo do casaco de tweed - um casaco que nunca usava. Procurou no interior, e não encontrou nada. De que raio estavas tu à espera? Começou a perguntar a si mesmo se Sophie não seria de facto louca, ao fim e ao cabo.
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Foi então que os seus dedos tocaram algo inesperado. Pequeno e duro.
Pegando no minúsculo objecto com as pontas dos dedos, tirou-o do bolso e ficou a olhar para ele, estupefacto. Era um disco metálico, mais ou menos do tamanho de uma pilha de relógio. Nunca vira uma coisa daquelas.
- Que...?
- É um marcador de GPS - explicou Sophie. - Transmite continuamente a sua localização para um satélite do Sistema Global de Posicionamento que a DCPJ pode monitorizar. Usamo-los para acompanhar as movimentações de certas pessoas. São exactos com uma margem de erro pouco superior a meio metro em qualquer parte do mundo. Puseram-lhe uma trela electrónica. O agente que foi buscá-lo ao hotel enfiou-lho no bolso antes de saírem do quarto.
Langdon recordou o que se passara no hotel... o duche apressado, vestir-se, o agente da DCPJ a estender-lhe delicadamente o casaco de tweed quando se preparavam para sair. Está frio lá fora, senhor Langdon, dissera o tenente. A Primavera em Paris não é exactamente como as vossas canções a descrevem. E ele agradecera e vestira o casaco.
Os olhos verde-azeitona de Sophie brilhavam intensamente.
- Não lhe falei do dispositivo de localização mais cedo porque não queria que se pusesse a procurar nos bolsos diante do Fache. Ele não pode saber que o encontrou.
Langdon não fazia ideia de como responder.
- Puseram-lhe o GPS porque pensaram que poderia tentar fugir. - Fez uma pausa. - Na realidade, estão na esperança de que tente fugir; seria uma boa prova adicional.
- Porque havia eu de fugir? - perguntou Langdon. - Estou inocente!
O Fache acha que não.
Furioso, Langdon dirigiu-se a um dos caixotes de lixo para deitar fora o pequeno disco metálico.
- Não! - Sophie agarrou-lhe o braço, detendo-o. - Deixe-o No bolso. Se o deitar fora, o sinal deixará de deslocar-se, e eles saberão que encontrou o marcador. O Fache só o deixou sozinho porque pode sempre saber onde o senhor se encontra. Se suspeita de que deScobriu o que está a fazer... - Sophie não terminou a frase. Em vez
disso, tirou o pequeno disco de metal da mão de Langdon e voltou
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a enfiar-lho no bolso do casaco. - O marcador fica onde estava pelo menos por enquanto.
Langdon sentia-se completamente perdido.
- Como diabo pode o capitão Fache acreditar que eu matei o Jacques Saunière?
- Tem alguns motivos bastante razoáveis para suspeitar de si
- A expressão de Sophie era sombria. - Há um indício que ainda não viu. O Fache teve o cuidado de lho esconder.
Langdon limitou-se a olhar para ela.
- Lembra-se das três linhas de texto que o conservador Saunière escreveu no chão?
Langdon assentiu. As palavras e os números tinham-se-lhe gravado no espírito.
A voz de Sophie reduziu-se a um murmúrio:
- Infelizmente, o que viu não era a mensagem completa. Havia uma quarta linha que o Fache fotografou e depois apagou antes de o senhor chegar.
Embora soubesse que a tinta solúvel de uma caneta de marca de água era facilmente lavável, Langdon não conseguia imaginar porque motivo teria Fache eliminado uma prova.
- A última linha da mensagem - continuou Sophie - era algo que o capitão Fache não queria que visse, senhor Langdon. Fez uma pausa. - Pelo menos, antes de lhe ter arrancado tudo o que pudesse. - Tirou do bolso do camisolão um print de computador de uma fotografia e começou a desdobrá-lo. - O capitão Fache enviou por e-mail fotografias do local do crime para o Departamento de Criptologia, na esperança de que algum de nós conseguisse perceber o que o conservador Saunière estava a querer dizer. Esta é uma foto da mensagem completa.
E estendeu o papel a Langdon.
Confuso, Langdon olhou para a imagem. A fotografia em grande plano mostrava a mensagem escrita no soalho de parquet. A última linha atingiu-o como um pontapé no estômago.

13-3-2-21-1-1-8-5
O, Draconian devil!
Oh, lame saint!
P.S. Find Robert Langdon
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>CAPÍTULO TREZE

Durante vários segundos, Langdon ficou a olhar, estupefacto, para a fotografia do pós-escrito de Saunière. P. S. Encontrar Robert Langdon. Sentiu como se o chão estivesse a fugir-lhe de baixo dos pés. Jacques Saunière deixou um pós-escrito com o meu nome? Por mais que se esforçasse, não conseguia imaginar porquê.
- Compreende agora - perguntou Sophie, com ansiedade no olhar - por que razão o capitão Fache o trouxe aqui esta noite e por que razão é o principal suspeito?
A única coisa que Langdon compreendia naquele momento era a razão por que Fache fizera aquele sorriso de satisfação quando ele sugerira que Saunière teria escrito o nome do seu assassino.
Encontrar Robert Langdon.
- Porque havia o Saunière de escrever uma coisa destas? - exaltou-se Langdon, com a confusão a dar lugar à raiva. - Porque havia eu de querer matá-lo?
- O Fache ainda não descobriu o motivo, mas tem estado a gravar toda a conversa consigo na esperança de que lhe revele um.
Langdon abriu a boca, mas nem uma palavra lhe saiu.
- Tem um microfone escondido - explicou Sophie. - Está ligado a um emissor que traz no bolso e que transmite o sinal para o posto de comando.
- Isto é impossível! - gaguejou Langdon. - Eu tenho um álibi. Fui directamente para o hotel depois da conferência. Podem perguntar na recepção.
- O Fache já perguntou. O relatório dele diz que levantou a chave do seu quarto na recepção às dez e meia. Infelizmente, o crime
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foi cometido mais perto das onze. Podia muito facilmente ter saído do hotel sem ser visto.
- Mas isto é de loucos! O Fache não tem qualquer prova!
Sophie abriu muito os olhos, como que a dizer: Não tem provas?
- Senhor Langdon, o seu nome aparece escrito no chão ao lado do corpo, e a agenda do conservador Saunière diz que estava com ele à hora aproximada a que foi morto. - Fez uma pausa. - O capitão Fache tem provas mais do que suficientes para detê-lo para ser interrogado.
Langdon teve repentinamente a sensação de que precisava de um advogado.
- Mas não fui eu!
Sophie suspirou.
- Não estamos na televisão americana, senhor Langdon. Em França, a Lei protege a Polícia, não os criminosos. Infelizmente, neste caso, há ainda a considerar os media. Jacques Saunière era uma figura muito querida e muito considerada em Paris, e o seu assassínio vai ser a notícia da manhã. O capitão Fache vai ver-se imediatamente pressionado a fazer uma declaração, e parecerá muito melhor se já tiver um suspeito sob custódia. Seja ou não culpado, o mais certo é ficar retido pela DCPJ até eles conseguirem descobrir o que realmente aconteceu.
Langdon sentiu-se como um animal encurralado.
- Porque é que está a dizer-me tudo isto?
- Porque, senhor Langdon, acredito que está inocente. - Sophie desviou o olhar por um instante. - E também porque é em parte por minha culpa que está metido neste sarilho.
- Como? Foi por sua culpa que o Saunière quis incriminar-me?
- O conservador Saunière não quis incriminá-lo. Foi um erro. A mensagem no chão era dirigida a mim.
Langdon precisou de um minuto para processar esta informação.
- Desculpe?
- A mensagem não se destinava à Polícia. Ele escreveu-a para mim. Penso que foi obrigado a fazer tudo tão à pressa que não se apercebeu do aspecto que ia ter para a Polícia. - Fez uma pausa. - O código numérico não tem qualquer significado. Saunière escreveu-o
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para ter a certeza de que a investigação envolveria criptólogos, garantindo assim que se saberia o mais cedo possível o que lhe tinha acontecido.
Langdon estava cada vez mais perdido. Sophie Neveu podia ser ou não ser louca, mas ao menos agora compreendia por que razão estava a tentar ajudá-lo. P.S. Encontra Robert Langdon. Aparentemente, acreditava que Jacques Saunière lhe deixara um críptico pós-escrito a dizer-lhe que o encontrasse a ele, Langdon.
- Mas porque é que acha que a mensagem era para si?
- O Homem de Vitrúvio - respondeu ela, calmamente. - Esse desenho sempre foi a minha obra preferida de da Vinci. Saunière usou-a para me chamar a atenção.
- Espere aí. Está a dizer-me que o conservador do Louvre sabia qual era a sua obra de arte preferida?
Sophie assentiu.
- Peço desculpa, isto está tudo baralhado. O Jacques Saunière e eu...
A voz de Sophie quebrou-se, e Langdon detectou nela uma súbita nota de melancolia, um passado doloroso, a fervilhar logo abaixo da superfície. Sophie e Jacques Saunière tinham aparentemente tido um qualquer tipo de relação especial. Olhou para a bela jovem que tinha à sua frente, sabendo que, em França, era comum os homens já de certa idade terem amantes mais novas. Mesmo assim, Sophie Neveu encaixava mal no papel de "mulher por conta".
- Zangámo-nos há dez anos - disse Sophie, e a voz dela não passava agora de um murmúrio. - Desde então, quase não voltámos a falar. Esta noite, quando recebemos na Cripto a notícia de que tinha sido assassinado e vi as imagens do corpo e do texto no chão, compreendi que estava a tentar enviar-me uma mensagem.
- Por causa do Homem de Vitrúvio? Sim. E das letras P. S.
- Post scriptu?
Ela abanou a cabeça.
- P. S. são as minhas iniciais.
- Mas o seu nome é Sophie Neveu.
Sophie desviou o olhar.
- Costumava chamar-me P. S., quando eu vivia com ele. - São as iniciais de Princesse Sophie.
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Langdon ficou sem resposta.
- É tolice, eu sei - disse ela. - Mas isso foi há anos. Quando eu era uma garotinha.
- Conheceu-o quando era uma garotinha?.
- E muito bem - disse ela, e os olhos encheram-se-lhe de emoção. - Jacques Saunière era meu avô.
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>CAPÍTULO CATORZE

- Onde está o Langdon? - perguntou Fache, expelindo a última baforada de fumo do cigarro antes de voltar ao posto de comando.
- Ainda na casa de banho. - O tenente Collet já estava à espera da pergunta.
- Sem se apressar, pelo que vejo - resmungou Fache.
O capitão espreitou por cima do ombro de Collet para o ponto vermelho do GPS, e o tenente quase conseguiu ouvir as engrenagens do cérebro dele a funcionar. Fache estava a combater o impulso de ir ver o que se passava com Langdon. Idealmente, era dada ao alvo de uma vigilância a maior liberdade de movimentos possível, para lhe incutir uma falsa sensação de segurança. Era essencial que Langdon voltasse por sua própria iniciativa. Em todo o caso, já tinham passado mais de dez minutos.
Demasiado tempo.
- Alguma possibilidade de ele nos ter descoberto?
Collet abanou a cabeça.
- Continuamos a detectar pequenos movimentos dentro da casa de banho, portanto continua obviamente a ter o marcador GPS com ele. Talvez esteja a sentir-se mal? Se tivesse encontrado o marcador, tinha-o atirado fora e tentado fugir.
Fache consultou o relógio.
- Óptimo- resmungou.
Mesmo assim, parecia preocupado. Durante toda a noite, Collet notara no capitão uma intensidade que não lhe era habitual. Normalmente descontraído e frio sob pressão, Fache parecia naquela
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noite emocionalmente envolvido, como se aquilo fosse, de algum modo, uma questão pessoal para ele.
Não admira, pensou Collet. O Fache precisa desta detenção como de pão para a boca. Recentemente, o Conselho de Ministros e os media tinham começado a criticar mais abertamente o capitão Fache e os seus métodos agressivos, os seus conflitos constantes com poderosas embaixadas estrangeiras e as suas despesas exorbitantes em novas tecnologias. A detenção de um americano, num caso importante graças ao recurso à alta tecnologia, contribuiria muito para silenciar essas críticas, ajudando-o a garantir o lugar por mais alguns anos até poder reformar-se com uma simpática pensão. E sabe Deus a falta que lhe faz a pensão, pensou. O engodo da tecnologia prejudicara-o tanto profissional como pessoalmente. Dizia-se que tinha investido todas as suas poupanças na loucura das novas tecnologias, alguns anos antes, e que com isso perdera até a camisa. E Fache é um homem que só usa camisas das mais finas.
Naquela noite, havia ainda tempo de sobra. A inopinada interrupção de Sophie Neveu, apesar de infeliz, não passara de um pequeno inconveniente. Já se fora embora, e Fache estava longe de ter jogado todas as suas cartas. Ainda não dissera a Langdon que o nome dele aparecera escrito no chão pela vítima. P. S. Encontrar Robert Langdon. A reacção do americano àquela prova ia com certeza ser extremamente reveladora.
- Capitão? - chamou um dos agentes do outro lado do gabinete. - Acho que é melhor atender esta chamada. - Estava a segurar o auscultador do telefone, com um ar preocupado.
- Quem é? - perguntou Fache. O agente franziu a testa.
- O director do Departamento de Criptologia.
- E?
- É a respeito da Sophie Neveu. Há qualquer coisa que não bate certo.
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>CAPÍTULO QUINZE

Chegara o momento.
Silas sentia-se forte ao apear-se do Audi preto, com a brisa nocturna a agitar-lhe o hábito. Andam no ar ventos de mudança. Sabia que a tarefa que tinha pela frente exigia mais finura do que força, e por isso deixou a pistola no carro. A Heckler ( Koch USP 40, de treze tiros, que o Professor lhe arranjara.
Uma arma de morte não tem lugar na casa de Deus.
A praça diante da grande igreja estava deserta àquela hora. As únicas almas visíveis eram, no extremo mais distante, duas prostitutas adolescentes que exibiam os seus dotes aos olhos de meia dúzia de turistas retardatários. A visão daqueles corpos núbeis acendeu em Silas a familiar labareda de desejo. O músculo da coxa contraiu-se instintivamente, fazendo com que as pontas aceradas do cilício martirizassem a carne.
A luxúria evaporou-se instantaneamente. Havia dez anos que Silas negava fielmente a si mesmo todos os prazeres sexuais, mesmo os solitários. Era O Caminho. Sabia que sacrificara muito para seguir a Opus dei mas recebera muito mais em troca. Um voto de castidade e a entrega de todos os seus bens materiais quase não lhe pareciam Um sacrifício. Considerando a pobreza de onde viera e os horrores Sexuais a que fora sujeito na prisão, a castidade era até uma mudança bem-vinda.
Agora, ao voltar a França pela primeira vez depois de ter sido
preso e enviado para uma prisão em Andorra, sentia a terra natal a testá-lo, a ir buscar recordações violentas ao fundo da sua alma redimida. Voltaste a nascer, recordou a si mesmo. Naquele dia, o serviço
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de Deus exigira o pecado do assassínio, e isso era um sacrifício que sabia que teria de guardar em silêncio no seu coração por toda a eternidade.
A medida da tua fé é a medida da dor que fores capaz de suportar dissera-lhe o Professor. Silas conhecia bem a dor e estava ansioso por provar o seu valor aos olhos do Professor, aquele que lhe tinha garantido que as suas acções eram ordenadas por um poder superior.
- Hago la obra de Dios - murmurou Silas, encaminhando-se para a porta da igreja.
Deteve-se na sombra do maciço pórtico e inspirou fundo. Só naquele instante se apercebeu verdadeiramente do que se preparava para fazer, e do que o esperava lá dentro.
A Chave de Abóbada. Conduzir-nos-á ao nosso objectivo final.
Ergueu o punho branco de fantasma e bateu três vezes.
Instantes depois, os ferrolhos da enorme porta de madeira começaram a mover-se.
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>CAPÍTULO DEZASSEIS

Sophie perguntou a si mesma quanto tempo demoraria Fache a perceber que ela não chegara a sair do edifício. Vendo que Langdon estava claramente esmagado, interrogou-se sobre se teria sido boa ideia encurralá-lo na casa de banho dos homens.
Que outra coisa podia eu fazer?
Reviu mentalmente o corpo do avô, morto e estendido no chão de braços e pernas abertas. Houvera um tempo em que aquele homem fora tudo para ela, e no entanto, naquela noite, surpreendia-se ao descobrir que quase não sentia pena. Jacques Saunière tornara-se um desconhecido. A relação que existira entre ambos esfumara-se num único instante, numa noite de Março, quando tinha vinte e dois anos. Há dez anos. Regressara uns dias mais cedo de um curso de pós-graduação numa universidade inglesa e vira involuntariamente o avô a fazer algo que não era obviamente suposto ela ver. Uma imagem em que, passados dez anos, ainda mal conseguia acreditar.
Se não tivesse visto com os meus próprios olhos...
Demasiado envergonhada e aturdida para suportar as desastradas tentativas de explicação do avô, Sophie saíra imediatamente de casa dele, pegando no dinheiro que conseguira poupar e alugando um pequeno apartamento que partilhava com algumas colegas. Jurara nunca falar fosse a quem fosse do que tinha visto. O avô tentara desesperadamente entrar em contacto com ela, enviando-lhe postais e cartas, suplicando-lhe que o deixasse explicar. Explicar como? Sophie nunca respondeu, excepto uma vez: para proibi-lo de telefonar-lhe ou tentar encontrar-se com ela em público. Tinha medo de que
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as explicações fossem ainda mais aterradoras do que o incidente em si.
Incrivelmente, Jacques Saunière nunca desistira, e Sophie tinha agora uma década de cartas por abrir guardadas numa gaveta da cómoda. A crédito do avô, tinha de reconhecer que nunca desobedecera à intimação dela tentando telefonar-lhe.
Até esta tarde.
- "Sophie?" A voz dele soara surpreendentemente velha no atendedor automático. - "Tenho acatado os teus desejos até agora... e custa-me muito telefonar-te, mas preciso de falar contigo. Aconteceu uma coisa terrível."


De pé na cozinha do seu apartamento em Paris, Sophie sentiu um arrepio gelado ao voltar a ouvi-lo passados todos aqueles anos. A voz meiga do avô trouxe à superfície uma vaga de recordações de infância.
- "Sophie, por favor, ouve-me." - Estava a falar em inglês, como costumava fazer quando ela era uma garotinha. Pratica o francês na escola. Pratica inglês em casa. - "Não podes ficar zangada para sempre. Não leste as cartas que te mandei ao longo de todos estes anos?" - Fez uma pausa. - "Temos de falar urgentemente. Por favor, concede ao teu avô este desejo. Liga-me para o Louvre. Imediatamente. Penso que corremos ambos um grave perigo."
Sophie ficou a olhar para o atendedor automático. Perigo? De que estava ele a falar?
- "Princesa..." - A voz do avô quebrou-se com uma emoção que ela não conseguiu identificar. - "Sei que te escondi coisas, e sei que isso me custou o teu amor. Mas foi para tua própria segurança. Agora tens de saber a verdade. Por favor, tenho de dizer-te a verdade a respeito da tua família."
De repente, Sophie conseguia ouvir o bater do seu próprio coração. A minha família? Os pais tinham morrido quando ela era ainda uma criança de quatro anos. O carro em que viajavam galgara o parapeito de uma ponte e caíra num rio de águas tumultuosas. A avó e o irmão mais novo estavam também no carro, de modo que toda a sua família desaparecera de um momento para o outro. Tinha uma caixa de recortes de jornais que o confirmavam.
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As palavras do avô desencadearam uma inesperada onda de saudade que lhe chegou ao âmago. Naquele fugaz instante, viu imagens, o sonho que tantas vezes a acordara quando era pequena: Estão vivos e voltaram para casa! Mas, tal como no seu sonho, as imagens dissolveram-se.
Estão todos mortos, Sophie. Não vão voltar para casa.
- "Sophie..." - continuou a voz do avô no atendedor. - "Há anos que espero para te dizer. Tenho estado à espera do momento certo, mas agora o tempo esgotou-se. Liga-me para o Louvre. Logo que ouvires isto. Vou esperar aqui a noite toda. Receio que estejamos ambos em perigo. Há tanto que tu precisas de saber."
A mensagem terminava aqui.
No silêncio que se seguiu, Sophie ficou de pé, imóvel e a tremer, pelo que lhe pareceu vários minutos. Considerando bem a mensagem do avô, só uma possibilidade fazia sentido, e a verdadeira intenção dele tornou-se-lhe clara.
Era um engodo.
Obviamente, o avô queria muito vê-la. Estava disposto a tentar todos os truques. A aversão que sentia pelo homem tornou-se ainda mais profunda. Disse a si mesma que talvez ele estivesse doente, em fase terminal, e tivesse decidido tentar todos os estratagemas de que conseguisse lembrar-se para levá-la a visitá-lo uma última vez. Se era esse o caso, escolhera bem.
A minha família.


Agora, no lavabo dos homens do Louvre, ouvia ecos da mensagem daquela tarde. Sophie, podemos estar em perigo. Telefona-me.
Não tinha telefonado. Nem planeara fazê-lo. Agora, porém, o seu cepticismo estava a ser duramente questionado. O avô jazia assassinado no interior do seu próprio museu. E tinha escrito uma mensagem cifrada no chão.
Uma mensagem de que era ela a destinatária. Disso tinha a certeza.
Apesar de não compreender o significado daquela mensagem, Sophie tinha a certeza de que a sua natureza críptica era prova adicional de que se lhe destinava. A sua paixão e habilidade para a criptografia eram uma das consequências de ter crescido ao lado de Jacques
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Saunière - ele próprio um maníaco de charadas, jogos de palavras e palavras cruzadas. Quantos domingos passámos a resolver os criptogramas e as palavras cruzadas dos jornais?

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